
    OLHOS FEITICEIROS
         Law of attraction
         Penny Jordan

         Digitalizao Joyce
         Reviso Anaiara

         Daniel era a imagem do sucesso. A ltima coisa que Charlotte desejava era se apaixonar!
         Desde o princpio, Charlotte no confiou em Daniel Jefferson, um bem-sucedido advogado, dono do sorriso mais sedutor que j conhecera. E tudo tornou-se
pior quando foi obrigada a trabalhar direto com ele. Era muita humilhao. Depois de ter sua vida transformada em um verdadeiro caos graas ao prprio fracasso,
ainda teria de aguent-lo dando-lhe ordens!
         Mas,  medida que o conhecia, tomava-se cada vez mais difcil no sucumbir  aura de paixo que impregnava o ar quando Daniel estava por perto. E cada vez
mais impossvel resistir aos olhares que ele lhe lanava...

        CAPTULO I

         charlotte French parou diante do prdio e estudou a placa que dizia: Jefferson & Horwich, Advogados.
         Seus joelhos estavam trmulos e a minissaia de seu tailleur azul-marinho, que combinava to bem com a modernidade de Londres, parecia-lhe extremamente curta
naquela cidade do interior, deixando-a pouco  vontade. Puxou-a para baixo, numa tentativa de torn-la mais discreta, e olhou em volta para ver se algum na praa
em frente ao prdio a observava.
         Passavam apenas alguns minutos das oito da manh, mas era dia de feira e as barracas j estavam armadas, com trabalhadores ocupados ao redor delas.
         Talvez, Charlotte pensou, ela devesse ter comprado um novo traje, mais apropriado para uma advogada reiniciando a carreira em uma nova empresa, mas naquele
momento de sua vida no podia se dar ao luxo de novas roupas.
         Jefferson & Horwich, ela leu outra vez.
         Bem, Richard Horwich ela j havia encontrado, pois fora ele mesmo quem a entrevistara para o emprego. Era um homem de meia-idade, com o aspecto respeitvel
do bem-sucedido advogado de uma cidade inglesa do interior.
         Quanto a Jefferson...
         Charlotte inspirou profundamente.
         Encare os fatos, ela ordenou a si mesma, preferia trabalhar para qualquer um, menos para Daniel Jefferson, o novo "queridinho" da mdia e dos meios jurdicos.
Praticamente sozinho, ele ganhara uma importante causa. Vtimas de um medicamento de uma poderosa indstria qumica j haviam tentado de todas as maneiras indenizaes
pelos danos sofridos com o uso da droga, sem resultado.
         Jefferson aceitara o caso e teve uma brilhante vitria, com repercusso pelo pas todo, conseguindo inclusive uma das maiores indenizaes j concedidas
pela lei.
         De p, contemplando a placa de bronze polida na frente do elegante prdio Georgiano, Charlotte no podia deixar de comparar sua situao com a de Daniel
Jefferson.
         Ela tambm era uma advogada qualificada. E j tivera sua prpria firma num prdio elegante, com seu nome na porta. Havia defendido pessoas lesadas e que
nem sempre podiam pagar uma ao na justia. Mas a terminava a semelhana entre eles.
         Enquanto Daniel Jefferson era bem-sucedido, festejado, procurado pela melhor clientela, desde o famoso caso Vitalle que ocupara manchetes dos jornais, ela
era obrigada a procurar emprego como empregada de uma firma de advocacia, forada a comear do degrau mais baixo. Tudo se fora, seu apartamento, sua firma e at
seu noivo, A recesso que j causara danos a tantas pessoas tambm a atingira.
         Talvez ela devesse, conforme sugeriam seus pais, sentir-se grata por ter conseguido um emprego to rpido numa poca to difcil e no ficar to cheia de
rancor e ressentimento contra o que lhe acontecera. Mas esta era a verdade: ela estava cheia de raiva.
         Tinha se esforado muito. Primeiro, estudando e depois trabalhando como louca como advogada numa importante firma de Londres, sempre com um objetivo em
mente: abrir seu prprio negcio.
         Charlotte acreditara ter alcanado a lua, quando, por um acaso feliz, ela e Bevan, seu noivo, encontraram um escritrio de advocacia  venda, na pequena
Guildford.
         Acontecera na poca em que muitas pessoas mudavam-se de Londres para lugares mais tranquilos, exaltando as virtudes da vida no campo, e Bevan, sempre atrs
de modismos, insistira para que ela o comprasse. Contudo, ao ver o tamanho da hipoteca, Charlotte hesitara, mas Bevan rira dela, chamando-a de medrosa e sem ousadia.
Aquele era um julgamento que ela no poderia tolerar, ento resolveu adquirir o escritrio e tambm um pequeno e elegante sobrado do outro lado da rua.
         Bevan e ela concordaram que para os primeiros anos de seu casamento aquela casa seria o ideal, mais tarde poderiam vend-la com algum lucro e comprar algo
maior, quando chegassem as crianas.
         Com o tempo, charlotte descobrira que a rea onde fizera os negcios era completamente instvel, com preos ora subindo, ora descendo ao sabor dos caprichos
imobilirios. Enfim, ela comprara as propriedades, mas aquela transao deixara-a sem nenhum dinheiro, com a hipoteca do escritrio e com uma enorme dvida no banco.
         Claro que, ao perceber o tamanho do passo que dera, sentira-se amedrontada e insegura, mas Bevan perguntara:
         - O que h com voc? Voc est assumindo um risco que os homens assumem todos os dias. - E ele ainda a desafiara: - O que h com vocs mulheres? Querem
ter igualdade, mas quando a conseguem...
         Bevan tendia a ser um pouco irritvel e muito rpido em seus julgamentos. Levava uma vida de alto executivo, trabalhando na City, o corao financeiro do
pas, e saa-se muito bem.
         Charlotte o conhecera atravs de uma colega, e a princpio as maneiras dele, um tanto sofisticadas e esnobes, a incomodaram, mas ele a cortejara de modo
to determinado que ela acabou no resistindo.
         O noivado deles no fora oficial, e sim um compromisso entre ambos. A me de Charlotte no escondera seu desapontamento com aquele "arranjo" no lugar de
uma bela festa de noivado, com a casa cheia de parentes e amigos.
         Charlotte havia sido moderna e diferente, no quisera a festa de noivado, nem a aliana tradicional, e agora tambm no tinha mais noivo.
         Com ar sombrio, ela olhou a imaculada porta, pintada de preto. Assim que a abrisse, estaria entrando numa vida totalmente nova. Estaria dando um enorme
passo atrs em sua carreira, coisa que jamais pensara que pudesse acontecer.
         Tinha trinta e dois anos. Velha demais para recomear de baixo. Porm, tinha de encarar a verdade: a culpa era sua. Ela era a nica responsvel pelo prprio
fracasso. Sabia disto.
         - Voc fracassou porque pegou muitas causas, movida s pela caridade - Bevan lhe dissera de modo brutal, quando ela se desmanchara em lgrimas, ao ter a
comprovao de que sua firma fora  falncia.
         Seu contador, de modo sucinto, colocara-a a par do seu desastre financeiro. Com muita sorte, ele dissera, ela poderia vender as duas propriedades e livrar-se
da hipoteca.
         Teria sido, mesmo, porque ela, inadvertidamente, tomara muitas causas que no lhe trouxeram nenhum retorno? Charlotte possua um grande senso de justia
e muitas vezes, mesmo sabendo que uma causa nada lhe renderia, no podia recus-la, por querer ajudar a pessoa injustiada.
         Ou quem sabe ela no era uma boa advogada, no tinha trabalhado o suficiente, no tinha a fora de vontade, a habilidade de atrair o tipo de clientela que
suas finanas necessitavam to desesperadamente. O tipo de clientela que os Daniel Jefferson do mundo tinham em abundncia, ela refletiu ainda mais pesarosa.
         E por que no? Quando se  festejado pelos jornais mais importantes da mdia, quando todas as revistas serias publicam artigos a seu respeito e cada programa
de televiso te promove e elogia, fica fcil ser solicitado pela melhor clientela do pas.
         E esta era a razo pela qual, em meio a uma das piores recesses das ltimas dcadas, Jefferson & Horwich estavam admitindo novos empregados. Esta era tambm
a razo pela qual Charlotte estava ali, de p, diante daquela porta, sabendo que devia sentir-se grata e por ter sido to bem acolhida por Richard Horwich e conseguido
um lugar em sua firma.
         Ela era grata, claro. Mas tambm sentia-se magoada e com raiva ao comparar seu fracasso com o enorme sucesso de Daniel Jefferson. E ele tinha somente trinta
e sete anos, era solteiro e incrivelmente atraente, pelo menos se as fotos publicadas correspondiam  realidade. Charlotte nunca o vira na televiso. Estivera muito
ocupada arrumando a baguna financeira em que se metera, barganhando com o banco para ganhar mais tempo. Graas a Deus, livrara-se dos piores compromissos. Pelo
menos no tinha mais a hipoteca para tirar-lhe o sono  noite.
         No entanto, tambm no tinha mais casa, e o avassalador reconhecimento de que teria de voltar ao comeo deixava-a com um gosto amargo. Sem dvida, ela devia
estar parecendo maravilhosa naquele tailleur carssimo, com assinatura do estilista, mas com certeza lhe dariam apenas servios de pouca responsabilidade e talvez
at lhe pedissem para preparar o ch.
         "Pare! Pare com isto! Chega de ter pena de si mesma", Charlotte ordenou.
         Em seguida, tomando flego, abriu a porta.
         Atrs de Charlotte, vindo da praa, um longo assobio de apreciao cortou o ar. Talvez algum elogiando uma jovem garota, ela pensou, cujas nicas preocupaes
seriam com qual namorado sairia naquela noite.
         Enquanto Charlotte desaparecia dentro do prdio, o homem que assobiara virou-se para seu companheiro e comentou:
         -  Que ruiva linda! No me lembro de t-la visto por aqui, antes.  nova?
         -  Parece que sim - Daniel Jefferson concordou, enquanto esperava que o feirante pesasse o queijo que  comprara.
         Aquela tarde ele precisaria visitar o velho Tom Smith, que vivia intranquilo sem saber o que aconteceria com sua casa e demais pertences quando ele morresse.
Ele no tinha herdeiros diretos, somente alguns familiares pelo lado de sua falecida esposa, que jamais o procuravam. Era desejo do homem idoso que um  jovem auxiliar
seu tivesse alguma recompensa aps sua morte.
         O queijo que Daniel comprara era para presentear o velho Tom.
         Daniel ficara surpreso ao ver Charlotte French entrando no seu prdio. Ento, ela aceitara mesmo o emprego que Richard oferecera. Quando Daniel lera o curriculum
vitae de Charlotte tivera dvidas se ela seria compatvel com sua banca de advocacia. Hum...
         Aquele tailleur que ela estava usando... Pessoalmente, ele no se importava com a maneira de as pessoas se vestirem, fosse homem ou mulher, mas alguns clientes
no compartilhavam a mesma opinio.
         Apesar de toda a publicidade que o caso Vitalle trouxera, a maior parte de suas causas ainda vinham da mesma classe social conservadora e tradicional que,
de forma alguma, aprovaria o tamanho das saias usadas em Londres e muito menos quando usadas por uma advogada.
         Daniel suspirou ao atravessar a rua em direo ao escritrio. Sabia pelo histrico profissional de Charlotte quo inteligente ela era, mas...
         Uma recepcionista bonita e sorridente recebeu Charlotte quando ela entrou. Provavelmente recordava-se dela, quando viera para a entrevista com Richard Horwich.
         A jovem logo a encaminhou para a sala que lhe fora destinada.
         - Oh! Mas no  inconveniente para voc deixar a recepo? - Charlotte perguntou, um pouco insegura.
         A recepcionista sorriu.
         -  No se preocupe, o sr. Horwich me disse para conduzi-la ao seu local de trabalho assim que voc chegasse. Antes que esquea, meu nome  Ginny.
         Caminhando pelo corredor, Ginny apontou para uma das portas fechadas e disse:
         -  Esta  a sala do sr. Horwich.
         Aps alguns passos, ela indicou outra porta como sendo a do sr. Jefferson.
         Charlotte lanou-lhe um olhar de vis. No tinha dvidas de que a sala de Daniel Jefferson devia ostentar luxo e ter a melhor vista.
         -  E aqui  a sua sala particular - disse Ginny, parando ao lado da sala de Daniel.
         Uma sala particular. Aquela informao deixou-a meio confusa, pois esperava dividir uma sala com os demais funcionrios, conforme entendera da conversa
com o sr. Horwich.
         Hesitante, Charlotte olhou para Ginny.
         - Voc tem certeza? Quer dizer... Pensei que fosse dividir uma sala com outras pessoas.
         Foi a vez de Ginny ficar confusa.
         - Bem, no sei... O sr. Horwich mandou-me traz-la para c. Ah! E ele tambm me disse que no estaria aqui hoje pela manh, mas que o sr. Jefferson lhe
explicaria tudo.
         Charlotte ficou contrariada. Preferia o sr. Horwich, que j conhecia. Sentia-se nervosa e vulnervel e olhou ao redor, surpreendendo-se com o tamanho da
sala1 e sua moblia tradicional e confortvel. Uma ampla janela debruava-se sobre a praa. Sem dvida, estaria muito bem instalada.
         - Acho melhor voltar para a minha mesa - Ginny falou. - Mitzi traz o caf cerca de dez e trinta, mas, se voc quiser, beber alguma coisa antes, h uma mquina
automtica na sala do pessoal, que fica no andar de cima. O sr. Jefferson mandou arrumar de maneira que possamos comer aqui, se quisermos. H tambm uma mesa de
sinuca para quem quiser relaxar um pouco. Bem, se no precisa de nada...
         Charlotte sorriu com polidez e agradeceu, observando a porta que se fechava atras de Ginny.
         No, no precisava de nada, se no se falasse em sua firma, em sua casa, seu respeito prprio, seu orgulho, seu noivo.
         Estranho, ela percebeu, como colocara o noivo em ltimo lugar. Ser que, no ntimo, ela sempre soubera que ele no passava de um dolo de barro? Que ele
no era o tipo de homem para dar-lhe suporte em tempos de crise, mas apenas a quisera enquanto fora bem-sucedida? Ser que algum dia haviam realmente amado um ao
outro?
         Charlotte aproximou-se da janela e ficou apreciando a praa. Um homem caminhava em direo  firma. Era alto, com ombros largos, porte atltico, seus cabelos
escuros brilhavam  luz do sol e ele se locomovia com agilidade e elegncia.
         O desconhecido usava um terno azul-marinho muito conservador e Charlotte podia ver os punhos da camisa, imaculadamente brancos, sob o palet. Era o tipo
de roupa que um executivo usaria. Um economista, um advogado... Seu corao deu um salto quando o homem parou diante da porta de entrada e olhou para cima, como
se soubesse que ela o observava.
         Charlotte reconheceu-o imediatamente das fotografias que vira nos jornais e revistas. Daniel Jefferson. Em pessoa sua fora mscula era muito mais evidente
e sua estrutura fsica exibia uma incrvel energia e virilidade.
         O terno que usava podia ser conservador, porm o corpo sob aquela roupa era inequivocadamente msculo e firme.
         Ao compreender quem era o desconhecido, Charlotte recuou com rapidez, o rubor cobrindo-lhe o rosto. Com um gesto muito caracterstico, ela passou a mo
pelos cabelos, jogando-os para trs.
         Seus cabelos foram a nica coisa que ela se recusara a mudar, quando Bevan decidira ajud-la numa modernizao da sua aparncia. Ele aconselhara-a a cortar
a espessa cabeleira ruiva acima do pescoo, mas ela teimara, e por fim no sacrificara nenhum fio. Orgulhava-se de seus cabelos e de seu vermelho profundo que algumas
pessoas at duvidavam que fosse natural.
         Formava uma bela moldura para seu rosto branco e seus olhos verdes.
         Muitas vezes Bevan insistira para que ela fizesse um tratamento para se bronzear. Alegava que uma pele to clara no estava em moda e que um bronzeamento
dava a impresso de sade e modernidade.
         Talvez ela devesse ter notado certos sinais na ocasio e compreendido que Bevan a queria ao seu lado pela imagem que criara sobre ela e no pela pessoa
que ela realmente era. No entanto, em pouco tempo, descobrira que, uma vez que a imagem fora arranhada, Bevan desaparecera.
         Bem, Charlotte tambm no precisou de muito tempo para descobrir que o que Bevan mais ferira fora seu orgulho e no o seu corao. Mas, mesmo assim... Levaria
anos at ela ter coragem de confiar em um membro do sexo masculino outra vez.
         O que a exasperava mais que tudo  que fora Bevan quem correra atrs dela, insistira, afogara-a em flores, cortejara-a como um prncipe. Mas sempre tentando
transform-la.
         Os pais de Charlotte e sua irm Sara, acreditavam que ela estava muito melhor sem ele e, no fundo, sabia que era verdade.
         Assim como sua firma, sua casa, seu carssimo carro, Bevan era um luxo que no tinha mais condies de manter.
         Graas a Deus, pelo menos no momento, o nico problema mais srio era a dvida do banco. O nico. Charlotte torceu a boca numa expresso de desagrado e
mordeu o lbio carnudo, procurando afastar o pessimismo e os maus pensamentos.
         Quando seus pais a convidaram para voltar a morar com eles, ela resistira muito a princpio. Ficaria livre de aluguel, mas na sua idade ser obrigada a voltar
a viver com os pais era muito humilhante. Charlotte adorava os pais e era apenas orgulho que a fazia resistir. Contudo, acabou aceitando a oferta, pois qualquer
pessoa de juzo sabia que era a soluo mais prtica e econmica.
         Mas, to logo se reorganizasse, procuraria um apartamento.
         Outra coisa que a perturbava  que at o carrinho simples, de segunda mo, que usava no momento fora seu pai quem lhe dera. Lgrimas acumularam-se nos seus
olhos ao lembrar como sentira-se envergonhada e miservel, quando seu pai lhe entregara o carro.
         Particularmente, Charlotte no lamentava ter perdido o BMW vermelho e reluzente que dirigia antes. Na verdade, sempre o achara um tanto chamativo. Adeus,
BMW. No era o que a fazia sofrer. Sofria por saber que fracassara. Por saber que era to dependente dos pais quanto o fora como adolescente e estudante.
         No entanto, seus pais e Sara, sua irm mais velha, tinham sido maravilhosos com ela, confortando-a com sua compreenso, jamais sugerindo que ela tivesse
qualquer culpa no que acontecera. Mas s vezes compreenso demais tambm magoava.
         A verdade  que Charlotte sentia-se culpada e muito, muito envergonhada. Permitira que Bevan a manobrasse com seus esquemas ambiciosos, sem se deter em
pensar com mais profundidade a respeito. Comportara-se como uma tola, confiando demais, e agora no podia acusar ningum por sua situao de penria.
         Mas, de tudo o que sucedera, o que mais a desesperava era acreditar que as pessoas que a conheciam deviam julg-la profissionalmente incompetente. Se fracassara,
era porque fora incapaz.
         Seus sentimentos eram contraditrios. Ao mesmo tempo que se considerava grata a Richard Horwich por ter-lhe dado a chance de um lugar como advogada em sua
firma, ressentia-se com a atitude dele porque suspeitava que ele agira movido por simples caridade. Devia saber a situao desesperadora em que se encontrava.
         Com tantos jovens advogados recm-formados procurando por emprego, o que fizera o sr. Horwich escolh-la, quando sabia que fora obrigada a fechar a prpria
firma?
         O pai de Charlotte lhe dissera que ela era severa demais consigo mesma, que, como muitos outros, fora vtima de um mau momento da economia do pas. Talvez,
mas o fato  que, mesmo com crise, havia vencedores.
         Daniel Jefferson, por exemplo.
         Charlotte sentiu-se angustiada. Esperava no precisar ter muito contato com ele.
         Talvez fosse pouco lgico sentir-se to... to antagnica em relao a Daniel Jefferson, to cheia de ressentimento, tinha de reconhecer. Impressionante
 que nunca fora uma pessoa rancorosa ou amarga, ao contrrio, era doce, prestativa e bem-humorada. Porm, algo mudara, nos ltimos seis meses, pois s conseguia
ver as coisas de maneira pessimista.
         Charlotte sentia-se insegura, frgil,  beira da depresso, atraioada pelo destino.
 noite, quando ficava sozinha, era impossvel controlar suas lembranas, e tudo o que acontecera voltava  sua mente como um filme que se repetia, tirando-lhe
a paz de esprito. Julgava-se culpada por ter sido to ingnua e incapaz, a ponto de no prever o perigo acumulando-se no horizonte. Se tivesse sido mais hbil,
teria se protegido e aos seus prprios clientes.
         Sim, era uma lstima no ter tido viso, o que sem dvida Daniel Jefferson tinha de sobra. Para que tudo corresse to perfeitamente, ele devia tambm ter
olho para distinguir boas causas e refutar as pouco rendveis, ela concluiu, ferina.
         Daniel Jefferson era um sucesso, tinha sorte. Bastava lembrar como lidara com o imenso conglomerado Vitalle e conseguira uma vitria to espetacular, que
surpreendera o mundo jurdico.
         De repente, Charlotte ouviu o barulho da porta ao lado abrindo-se e o som tirou-a de seus obscuros pensamentos.
         Rpida, ela sentou-se  mesa, fazendo um esforo para apresentar naturalidade.
         Era bvio que Daniel havia chegado para iniciar mais um dia de trabalho.
         Do que ele se ocuparia naquele dia?, ela se perguntou de m vontade.
         Com certeza, estudaria algum caso importante que lhe traria ainda mais aplausos. Ou talvez preparasse o que dizer em algum programa de televiso.
         Charlotte recordou que certa vez lera um artigo, em uma revista de grande circulao, no qual a imprensa declarava-se surpresa com a maneira desenvolta
com que Daniel Jefferson conduzia suas entrevistas, com suas respostas claras e concisas, demonstrando um profundo conhecimento de sua profisso.
         Algumas pessoas eram assim mesmo, sentiam-se  vontade junto  imprensa porque o que mais presavam no mundo era a publicidade.
         Com um vago sentimento de humilhao, Charlotte lembrou da pequena nota que fora publicada sobre o fechamento de sua firma, citando-a como mais uma vtima
do nefasto perodo de recesso.
         Precisava deixar o passado para trs, como seu pai aconselhara com tanto carinho, afinal, no era nenhum crime, nenhuma vergonha ter ambio, abrir seu
prprio negcio e depois ser obrigada a fech-lo. Para encoraj-la, seu pai lhe dissera que sentia-se orgulhoso por ter tentado, muito mais do que se ela simplesmente
tivesse se acomodado num emprego tradicional.
         No entanto, Charlotte no podia esquecer como seus pais ficaram orgulhosos quando ela se formara e depois, quando se estabelecera por conta prpria. De
certa forma, agora, no se sentia mais merecedora do orgulho paterno, bem como tambm no se sentia digna do respeito e confiana dos seus colegas de profisso.
         Enquanto ela se encontrava perdida naquelas ideias sombrias, a porta se abriu.
         Disfaradamente, ela secou os olhos marejados e tentou levantar-se com rapidez, amaldioando a saia justa e curta demais, que lhe tolhia os movimentos.
         - Oh! sr. Horwich... - ela comeou e logo interrompeu-se, porque no era Richard Horwich que estava parado  sua frente.
         Como fora o sr. Horwich que lhe oferecera o emprego, ela esperara que ele viesse ao seu encontro. No seu nervosismo, esquecera o que Ginny lhe dissera ao
chegar.
         De p, parado diante dela, encontrava-se Daniel Jefferson.
        CAPTULO II
         - Oh! Desculpe-me... - Charlotte comeou a se justificar, no se perdoando por ter chamado seu novo patro pelo nome errado.
         - No se incomode, est tudo bem - Daniel Jefferson disse, com gentileza.
         Ele sorria para Charlotte, um sorriso terno, parecendo perfeitamente sincero, o que, de forma incompreensvel, aumentou seu ressentimento e mal-estar na
presena dele.
         - Sinto muito no ter estado presente, quando voc chegou. Houve um pequeno contratempo no caminho e me atrasei, mas espero que Ginny tenha lhe explicado
mais ou menos como as coisas funcionam por aqui. Consegui que Margareth Lewis, que  encarregada dos advogados em treinamento, venha v-la s dez e meia para lev-la
ao berrio e apresent-la aos demais funcionrios.
         - Berrio?
         Charlotte arregalou os olhos, sem entender. Daniel sorriu cativamente outra vez.
         -  E assim que chamamos a sala onde os jovens advogados em treinamento trabalham. Este apelido  devido, em parte, ao fato de eles serem iniciantes, mas
tambm ao fato de que esta sala costumava ser o berrio da antiga casa. Voc sabe, isto  uma velha manso reformada e adaptada para escritrios.
         Ele parou de falar e olhou para Charlotte de modo avaliador.
         Imediatamente, ela tornou-se insegura, dolorosamente consciente de sua roupa por demais londrina e moderna para um escritrio de uma pequena cidade. Na
verdade, precisou controlar-se para no ceder ao impulso de puxar a saia para baixo.
         Seria sua imaginao ou havia mesmo a sombra de um sorriso divertido na boca mscula e bem desenhada, enquanto ele a observava? Charlotte sentiu a pele
queimar com o calor que lhe subiu ao rosto e pescoo.
         Estava tudo timo para ele, ela decidiu, cheia de amargura, vestido num inpecvel e caro terno. Duvidava que alguma vez na vida ele tivesse se encontrado
em uma situao to difcil, sem ter dinheiro nem para comprar uma roupa numa loja de departamento.
         Pois bem, ele que se divertisse com ela. Pouco lhe importava. Mas no fundo ela se importava, e muito. Incomodava-lhe tambm o fato de Daniel estar lhe dando
instrues em vez do sr. Horwich. Sem contar o porque de a terem colocado isolada dos demais funcionrios e junto  sala dele. Ser que apesar do sorriso cordial,
Daniel teria feito objees a que ela fosse admitida? Talvez tivesse dito ao scio que ela era incompetente, que fracassara e que no queria uma pessoa assim entre
seus empregados.
         As mais terrveis dvidas e os pensamentos mais pessimistas ocorriam a Charlotte. Comeava a acreditar que Daniel a instalara ao lado dele por no confiar
nela profissionalmente, e assim poder vigi-la e controlar melhor seu trabalho.
         O orgulho de Charlotte, j muito dilacerado pelos ltimos fracassos, a fez estremecer diante daquela ideia.
         - Acha que ficar bem instalada aqui? - Daniel perguntou. - Sei que est acostumada a trabalhar por conta prpria, ento, imagino que no se sentir solitria.
Bem, de qualquer modo, a porta de comunicao entre nossas salas estar aberta a maior parte do tempo.
         Ele apontou para uma porta mais ou menos camuflada entre os armrios, que Charlotte a princpio no havia notado.
         Sua amargura e ressentimento quase a sufocavam, enquanto o escutava. Seria possvel que ele realmente achasse necessrio observ-la durante o trabalho?
         Charlotte apertava as mos com tanta fora que suas unhas longas machucavam-lhe a palma das mos. Fazia um esforo sobre-humano para no dizer quele homem
condescendente, mas cheio de preocupaes, o que ele devia fazer com seu emprego.
         Para controlar seus nervos e sua lngua, ela procurou se lembrar da dvida bancria. No estava em posio de virar as costas a um emprego, a um bom emprego,
para ser honesta... no importava quem lhe oferecia.
         Afinal, no fora Daniel quem lhe dera o emprego. Com raiva, ela visualizava a conversa que deveria ter acontecido entre ele e o sr. Horwich, e que provavelmente
ficara muito aborrecido com a deciso de admiti-la na firma.
         Por certo, o sr. Horwich mostrara seu curriculum vitae... e estava tudo ali.
         Charlotte fora muito honesta e no escondera nada do que se passara. Como administrara seu prprio negcio e como falira. Durante a entrevista, o sr. Horwich
perguntara-lhe sobre a falncia com detalhes e ela respondera com toda franqueza.
         Era fcil imaginar como sua presena naquela equipe de vitoriosos devia contrariar Daniel Jefferson.
         Subitamente, Charlotte percebeu que ele ainda falava e precisou concentrar-se para prestar ateno, forando seu rosto a no exprimir nenhuma emoo.
         -  Preparei uma lista dos casos mais urgentes e onde tenho a maior necessidade de ajuda. Acredito que seria muito bom se voc dedicasse alguns dias para
familiarizar-se com eles. So casos muito variados, tratando dos mais diferentes assuntos.
         A voz dele parecia vir de muito longe, mas Charlotte conseguia acompanh-lo.
         -  No sei se Richard deu-lhe alguma explicao sobre nosso escritrio. Pois , originalmente, ramos uma pequena banca de advocacia. Nenhum de ns era
especializado em nenhuma rea de direito. Sempre preferimos receber todos os tipos de causas, sem se-lecionar de onde vinham. Se sentssemos que um caso estava alm
de nosso escopo, ento ns o conduzamos para outros advogados. Talvez esta forma de trabalhar seja considerada um pouco antiquada, mas nos convm. - Ele sorriu.
- E, para ser honesto, no gosto de trabalhar sempre no mesmo tipo de causa, prefiro a variedade.
         Charlotte olhou-o de soslaio, sentindo-se enrubescer. Teria ele conhecimento de que em sua firma, dedicara-se apenas s causas que envolviam imveis e propriedades?
Gostaria de dizer-lhe que no fora propriamente uma deciso premeditada, mas que no tivera escolha, pois no tivera condies de se expandir. Saberia ele tambm
que acolhera muitos casos, sem cobrar?
         Bevan ficara furioso com ela por isto. Os casos que defendera gratuitamente tinham sido motivo de inmeras discusses entre ela e o noivo. Mas Charlotte
fora firme e o fizera ver que o trabalho era dela e que podia conduzi-lo como quisesse.
         Claro, no tivera nenhum lucro, mas sentira-se muito gratificada em poder ajudar pessoas que, de outra forma, teriam sofrido grandes injustias.
         - Esta  uma experincia nova para mim - Daniel continuava falando. - Nunca trabalhei ligado a outra pessoa a no ser bem no comeo de minha carreira, assim
que me formei. Mas com o excesso de trabalho que temos agora, confesso que preciso de uma assistente.
         Assistente! Ento ela fora admitida na firma para ser a assistente de Daniel Jefferson! Charlotte mordeu o lbio para no protestar. Nada lhe fora dito
a respeito de trabalhar exclusivamente para Daniel, e ela presumira que faria parte da equipe de advogados que trabalhava em conjunto. Era um trabalho mais annimo,
mas no qual estaria em p de igualdade com os demais.
         Considerava uma pssima notcia ter de trabalhar diretamente sob as ordens de Daniel e em uma sala com porta de comunicao. No teria nenhuma liberdade.
         Sentia-se tentada a faz-lo declarar que a colocara perto dele para melhor control-la e no porque acreditasse que ela seria capaz de ajud-lo.
         Aquela verdade era muito dolorosa. Se ao menos pudesse satisfazer seu orgulho e dizer-lhe que mudara de ideia e que no queria mais o emprego e sair daquele
lugar de cabea erguida.
         Mas no podia. S podia ranger os dentes e dar-lhe um sorriso gelado.
         Afinal de contas, ela no passava de uma simples funcionria e ele era o patro, era quem ditava as ordens.
         A frustrao dos insucessos borbulhavam dentro de Charlotte, e Daniel era seu alvo. Ele, por certo, jamais dera um passo em falso na vida ou cometera um
erro, nunca sofrera humilhaes ou perdera alguma coisa: amor...
         Bem, Bevan no fora de fato amor. Tinham convivido por mais de um ano, e por mais estranho que parecesse nunca tinham feito amor. Aps a corte intensa e
passional que Bevan lhe havia feito, ele se envolvera tanto reorganizando a carreira de Charlotte, bem como sua imagem, que no houvera espao disponvel para envolvimento
fsico, como o de verdadeiros amantes. Quando saam, estavam sempre acompanhados pelos amigos de Bevan, executivos, pessoas do mundo da moda e da alta sociedade.
         Charlotte agora via com clareza que era uma multido sem alma, gente que se importava apenas com as aparncias, com grifes e dinheiro.
'
         Ela se deixara levar... porque Bevan a enfeitiara com seu mundanismo e modos sofisticados, ela admitiu, culpada.
         Naquele momento, Daniel perguntava-lhe se precisava de alguma coisa.
         Sim, precisava urgentemente de respeito prprio e de algo que lhe massageasse o ego. Necessitava demais que acreditassem nela, principalmente em sua capacidade
profissional. Porm, no seria aquele homem quem lhe iria dar aquelas coisas.
         Charlotte sorriu-lhe de modo impessoal.
         - No, no preciso de nada, obrigada.
         Gostaria, contudo, de ter perguntado onde se encontravam as pastas dos processos que ele queria que ela visse. Mas no iria pedir-lhe nada.
         Daniel dirigiu-se ao seu escritrio e, como deixara a porta totalmente aberta, Charlotte pode ter uma boa viso do local. Para sua grande surpresa, ele
no era nem um pouco parecido com o que imaginara. A moblia era antiga, com poltronas confortveis ao lado da lareira, uma mesa grande e pesada em frente  janela
e, bastante inesperado, um grande ba de madeira com vrios brinquedos sobre a tampa.
         - Considero estes brinquedos muito teis, quando estou tratando casos de divrcio - Daniel disse, ao ver o olhar surpreso de Charlotte. - Com frequncia,
atendo mulheres em processo de divrcio e elas trazem os filhos. Quando as crianas vem os brinquedos, ficam entretidas e nos deixam conversar.
         Sem dvida, era uma idia engenhosa de quem pensava em tudo.
         De modo disfarado, Charlotte olhou em volta, tentando avistar as pastas de que necessitava, mas no havia nem sinal delas. Talvez devesse pedir auxlio
para a tal de Margareth Lewis, quando a encontrasse mais tarde, ou mesmo, a Ginny, s no queria pedir nada a Daniel.
         Charlotte desejaria fechar a porta entre eles e manter o homem que no confiava nela longe de seus olhos, mas mesmo uma ao to simples como aquela no
lhe cabia. Ele  quem decidia se a porta ficava aberta ou fechada. Estavam longe os tempos em que ela tomava decises.
         Exatamente s dez e meia, Charlotte ouvia um leve toque em sua porta. E ao abri-la deparou-se com uma mulher que se apresentou como Margareth Lewis. Era
muita alta, cerca de cinquenta anos, alguns fios brancos nos cabelos castanhos e um sorriso acolhedor.
         Se ela tambm compartilhava da falta de confiana em Charlotte como Daniel, disfarava bem. Sua recepo no poderia ter sido mais calorosa.
         Subindo as escadas atrs dela, Charlotte sentiu-se relaxar pela primeira vez naquela manh.
         - Somos muito unidos aqui no escritrio - Margareth disse. - E gosto de pensar que isto  devido ao fato de ela ter sido estabelecida por uma mulher.
         - Uma mulher? - Charlotte olhou-a, surpresa. Margareth sorriu diante de sua reao.
         - Sim. Ldia Jefferson abriu sua banca de advocacia nesta casa, assim que se formou, porque no conseguia trabalho em nenhuma outra banca qualificada. Foi
uma atitude cheia de coragem para uma mulher naquele tempo.
         - Ldia Jefferson? - Charlotte perguntou. - Com este nome... por acaso  parente de Daniel Jefferson?
         -  Sim. Era sua tia-av - Margareth confirmou.
         -  Quando vim trabalhar aqui, ela j havia se aposentado, mas mesmo assim tinha o maior interesse por tudo que se passava. Na verdade, foi ela quem me encorajou
a trabalhar na profisso. Ela e Daniel eram muito ligados. Quando ele ainda estava na escola secundria, ela costumava traz-lo, para ver se ele seguiria seus passos.
         - Uma mulher rara para sua poca, no  mesmo? - admirou-se Charlotte.
         -  Sim, e ela possua tambm uma opinio muito forte a respeito dos direitos femininos. Achava que as mulheres deveriam controlar suas prprias vidas e
lutava pela causa das pessoas desvalidas. Neste ponto, Daniel parece-me muito com ela. Sabe, ele  muito brilhante e a maioria das pessoas pensa que ele deveria
abrir uma banca em Londres e ocupar um cargo elevado como juiz ou outro cargo importante. Mas ele decidiu que queria continuar o trabalho de Ldia e manter sua tradio.
         - Bem, mas agora, com toda esta publicidade em torno do nome dele, os elogios, as homenagens, ele deve sentir-se tentado a trabalhar em Londres.
         Margareth meneou a cabea, negando.
         - Oh! No! Daniel jamais faria isto.
         Ela falou com tal convico e afeto que Charlotte sentiu-se pessoalmente atingida, e toda sua m vontade contra Daniel Jefferson ressurgiu.
         Era mesmo muito injusto que algumas pessoas tivessem tudo. Aquele Daniel recebia todos os prmios da vida numa bandeja. Tudo que ele tivera de fazer fora
formar-se em Direito e tomar posse da firma que a tia j estabelecera. Nem tivera as dificuldades normais do comeo. E devia tudo a uma mulher.
         Margareth abriu uma das portas e Charlotte viu-se numa sala ampla e ensolarada com oito pessoas trabalhando s mesas. Havia no ar um rudo de computadores
e de outros aparelhos eletrnicos. Ao longo das paredes havia prateleiras lotadas com pastas e todo tipo de papel.
         Apesar de ser evidente que todos naquela sala estavam assoberbados com trabalho, a atmosfera era tranquila e prazerosa.
         Charlotte reconheceu na expresso dos rostos a alegria de quem faz seu trabalho com prazer, a vivacidade de pessoas inteligentes. Mesmo sem conhecer nenhum
dos funcionrios, sabia que eles eram como ela j havia sido: cheios de energia, entusiasmo, porm Charlotte notou em todos eles um ar de relaxamento e bem-estar
que ela nunca usufrura. Sempre sofrera com uma terrvel ansiedade, desde o primeiro momento que comeara a trabalhar por conta prpria.
         Talvez aqueles jovens no conhecessem seu histrico, pois a receberam com cordialidade e amveis brincadeiras, sem nem por um instante parecerem incomodados
com a aquisio de uma advogada to malsucedida.
         Um ou dois rapazes olharam-na de modo mais insinuante, principalmente para suas pernas, expostas pela saia curta, mas era um olhar de admirao e no de
reprovao.
         Fechando a porta na sada, Margareth exclamou:
         - Deus os abenoe. So funcionrios acima da mdia. Daniel acredita que se deva dar-lhes o mximo de responsabilidade e eu posso afirmar que este mtodo
funciona. Cada um deles  designado para uma causa em especial, e quando Daniel precisa, eles o ajudam com as informaes necessrias.
         -  Parece ser muito interessante.  bem melhor aprofundar-se em um caso do que saber um pouco sobre vrios.
         - No  mesmo? Bem, acho que nos prximos dias voc vai estar muito ocupada, familiarizando-se com o novo emprego. Mas assim que estiver acomodada, poderemos
almoar juntas.
         - Oh! Sim, gostaria muito - Charlotte respondeu com genuno entusiasmo. - Ah! Margareth, h uma coisa que quero lhe perguntar. Onde vocs costumam arquivar
os processos?
         - Venha comigo - Margareth convidou, sorrindo. Enquanto elas seguiam pelo corredor, Margareth dava-lhe algumas informaes.
         -  Daniel no quer se desfazer desta casa, porque foi comprada por Ldia, mas, na verdade, o crescimento de nossa clientela est pedindo mais espao.
         E, abrindo uma porta, ela disse:
         - Veja, aqui esto todos os processos em andamento. Os casos encerrados ficam arquivados no poro. Voc achar tudo aqui em ordem alfabtica, e se estiver
faltando alguma coisa  porque Daniel ou outro advogado est usando. Se precisar de algo ou tiver alguma dvida,  s me telefonar.
         Charlotte agradeceu e voltou  sua sala. Pelo menos Margareth no era uma antagonista, mas talvez ainda no soubesse a verdade a seu respeito.
         Mal Charlotte entrou no escritrio, ouviu Daniel cham-la.
         - Poderia vir at minha sala, por favor, Charlotte?
         Com relutncia, ela atendeu.
         Ele estava sentado  escrivaninha, e para Charlotte permanecer em p  frente dele fazia com que todas as diferenas entre eles aumentassem.
         Daniel ergueu os olhos, sorrindo, um sorriso que ele sabia que fazia grande sucesso na televiso. Claro que seus dentes eram muito brancos e perfeitos,
mas, olhando melhor, Charlotte notou que havia uma pequenina falha num dente do lado e aquela insignificncia fez com que ela se sentisse mais bem-humorada. Enfim,
conseguia achar uma falha em toda aquela perfeio, ainda que fosse uma leve incorreo em um dente.
         - Veja, aqui est uma lista adicional aos arquivos com o qual gostaria que voc se familiarizasse - ele disse.
         Para receber a lista, Charlotte teve que se aproximar e, ao faz-lo, sentiu o perfume de sabonete que exalava dele. Daniel no usava nenhuma loo para
homens. Era apenas um odor msculo de limpeza.
         Uma das coisas que ela nunca pudera aceitar em Bevan era sua mania por perfumes carssimos e fortes, que impregnavam todo o ambiente. Era impossvel no
perceber sua chegada. Seu perfume sempre o anunciava. Charlotte tentara, timidamente, dizer-lhe tal coisa mas ele no prestara ateno.
         - Sirva-se de um pouco de caf - Daniel ofereceu. - E sente-se tambm, por favor. Quero lhe dar os resumos dos processos e depois gostaria que os lesse
e me desse sua opinio profissional a respeito de seus pontos fortes e fracos.
         Charlotte estava se servindo de caf, quando Daniel fez o comentrio sobre os processos, e por isto foi possvel esconder o rubor que lhe cobriu o rosto.
Daniel Jefferson era mesmo um insuportvel convencido. O que ele estava tentando agora? Test-la? Apesar da raiva, Charlotte sentiu-se receosa. E se ele a estivesse
testando mesmo e no gostasse do resultado? Provavelmente a dispensaria.
         Bebericando o caf com lentido, ela procurou disfarar seus sentimentos. No podia nem pensar em perder aquele emprego. O salrio era excelente e era prximo
da casa de seus pais, logo, enquanto no se , reerguesse, teria de conviver com aquele tipo de comentrio.
         Com rosto impassvel, Charlotte encaminhou-se para a escrivaninha de Daniel outra vez. Ao sentar-se, percebeu constrangida como sua saia subia, mostrando
as coxas bem-torneadas. De soslaio, olhou para Daniel, mas ele estava ocupado remexendo uns papis e nem sequer desviou o olhar.
         Quando ele comeou a dar-lhe um resumo dos casos, Charlotte teve que admitir que ele realmente envolvia-se de corao com o trabalho.
         "Porm", ela pensou, "ser um bom advogado no  o mesmo que ser um bom ser humano."
         Quando era quase uma hora, embora ainda faltassem muitos processos, Daniel interrompeu-se e lhe disse:
         - Acho que  suficiente para um dia. Tenho um compromisso na hora do almoo e acho que no estarei de volta antes das trs. Vamos deixar o restante para
amanh. Caso voc no queira sair para almoar, h uma sala no andar de cima onde voc pode comer qualquer coisa.
         -  Sim, eu sei. Obrigado. Ginny me informou sobre isto.
         De repente, Charlotte tomou conscincia do ar pensativo com que ele a olhava. Para seu embarao, sentiu que corava. Como se no quisesse constrang-la,
ele desviou o olhar e ocupou-se de uns documentos, dispensando-a.
         Charlotte trouxera alguns sanduches para comer num pequeno parque perto do rio, mas o dia tornara-se cinzento e seria bem melhor comer no andar de cima.
         Ao entrar na sua sala, ficou agradavelmente surpreendida ao ver Ginny esperando-a.
         -  O primeiro dia em um novo emprego s vezes  muito solitrio. Afinal, no se conhece ningum - falou Ginny, com um sorriso simptico. - Ento achei que
talvez quisesse comer comigo l em cima.
         -  Oh! Muito obrigada. Trouxe alguns sanduches, porque no sabia o que me esperava. Gostaria de ir at ao rio, mas o tempo no est bom.
         As duas saram, conversando, e quando passavam pelo corredor, uma mulher veio na direo delas.
         Era alta, muito mais alta que Charlotte, tinha cabelos negros brilhantes e ondulados. Sua maquilagem era impecvel, embora um pouco exagerada para o gosto
de Charlotte. O conjunto que usava era o ltimo Chanel e havia um anel de brilhante muito grande e ostensivo em seu dedo fino.
         A mulher lanou um olhar gelado e arrogante para as duas e disse, com um tom de voz frio e impessoal:
         - A recepo est vazia. Tenho certeza de que Daniel no gostar disto.
         Aps estas palavras, ela olhou para Charlotte, apertando os olhos de leve e demorando o olhar sobre sua roupa. Era evidente que no a aprovava.
         Assim que ela desapareceu no escritrio de Daniel, Ginny cochichou:
         - Esta  Patrcia Winters, viva de Paul Winters, um milionrio. Ela casou-se com ele aos vinte e trs anos e ele j tinha mais de sessenta. Agora que ele
morreu, corre um boato de que ela estaria procurando um segundo marido, mas desta vez quer um homem rico e bonito. - Ginny revirou os olhos. - Pobre Daniel: andamos
desconfiados de que est sob a mira dela. s vezes, ns brincamos, dizendo que os advogados  tambm precisam ser defendidos de certos clientes.
         - Talvez ele no queira ser defendido - Charlottfe lembrou, achando que Patrcia Winters formaria o par ideal com Daniel Jefferson.
         -  Oh! No. Daniel jamais iria querer casar com Patrcia. Ele  bom demais - Ginny protestou.
         Mas, afinal o que Daniel administrava, uma banca de advocacia ou um f-clube?, pensou Charlotte. Bem, com toda certeza, ela no iria juntar-se quele clube.
Todo mundo podia jurar que Daniel era maravilhoso, mas ela no se deixaria enganar.
         -  Ento, Patrcia Winters  uma cliente? - ela perguntou.
         - Sim, e insistente. Vem mais aqui do que seu marido costumava vir.
         Chegando ao andar superior, Charlotte olhou pela janela e avistou um reluzente Rolls-Royce estacionado em frente ao prdio. Naquele momento, um motorista
abria a porta para Patrcia, que entrou no carro, seguida por Daniel. Ento, aquele era o compromisso para o almoo! Certas pessoas tm mesmo sorte, Charlotte refletiu
com ironia.
         Aonde quer que eles estivessem indo, Charlotte duvidava que fossem comer sanduches. Provavelmente, comeriam salmo e caviar, regados a champanhe no luxuoso
e requintado quarto de dormir de Patrcia Wmters.
         De repente, vendo a direo de seus pensamentos, Charlotte recuou da janela e censurou-se. No importa o que ela pensasse sobre Daniel Jefferson, no tinha
nenhum direito de fantasiar sobre sua vida ntima.


        CAPTULO III

         Aps o rpido almoo, Charlotte foi  sala k.onde ficavam as pastas dos processos. Uma das que ela precisava comeava com a letra "A", e ela se perguntava,
incomodada, como alcanaria a ltima prateleira. Era alta demais para ela. Enquanto considerava o que fazer, seus olhos posaram sobre uma escada fechada e colocada
contra um dos cantos da parede.
         Era uma escada leve de alumnio, fcil de carregar, e Charlotte abriu-a no local que lhe pareceu mais apropriado e comeou a subi-la.
         Com todo cuidado, ela galgava um degrau atrs do outro, amaldioando sua ideia, por estar de saltos altos e saia to justa. Charlotte jamais gostara de
alturas e, portanto, evitava olhar para baixo, temendo uma vertigem.
         Ao chegar ao topo da escada, percebeu que no calculara bem a posio e que precisaria esticar-se perigosamente para alcanar a pasta que queria. Ela evitava
segurar-se na escada, com medo que tudo des-pencasse.
         Nos ltimos tempos, tudo o que ela fazia, dava errado. Conseguia tornar complicada at uma ao simples como retirar uma pasta de uma prateleira.
         Irritada consigo mesma e no querendo sofrer a frustrao de descer sem a pasta, debruou-se ao mximo, apesar das dificuldades causadas pela saia.
         Charlotte prendeu a respirao e seus dedos j tocavam a pasta.
         -  Mas o que significa isto?
         O choque de ouvir a voz de Daniel Jefferson fez Charlotte esquecer seus cuidados e ela voltou-se bruscamente para olh-lo. Na sua precria posio, aquele
foi um gesto arriscado. A escada estremeceu sob seu peso e ela percebeu que ia cair.
         Apavorada, fechou os olhos e esperou o baque, mas ele no veio. Em vez de esparramar-se no cho, ela despencou nos braos de Daniel, que correra para segur-la.
         Que situao humilhante e logo no seu primeiro dia!
         Segura com firmeza contra o peito de Daniel, Charlotte viu, para completar seu horror, que inmeras pastas, deslocadas pelo seu desequilbrio, comeavam
a cair sobre a cabea de ambos.
         No poderia censurar Daniel por classific-la como uma completa idiota, e no era de forma alguma o auxlio de que ele precisava.
         As pastas derrubadas formavam um monte no cho, parecendo papis inteis, e a escada jazia no outro lado. Em poucos minutos tornara uma sala organizada
numa verdadeira baguna.
         Mas, pior que tudo: Charlotte ainda se encontrava no colo de Daniel, os seios apertados contra seu peito forte e de tal forma, que podia sentir-lhe o bater
do corao. O decote torcera-se e expunha seu colo de modo pouco decente e a saia deixava suas pernas de fora.
         Jamais imaginara que pudesse se sentir to humilhada e furiosa ao mesmo tempo, porm, era tudo sua prpria culpa.
         -  Est tudo bem, Charlotte. Escapou de um belo tombo. Eu a tenho aqui, v? - Daniel falou, como se fosse necessrio dizer-lhe tal coisa.
         Por alguma traioeira brincadeira de qumica de seu corpo, sentia-se to confortvel, to protegida nos braos dele, como nunca se sentira nos braos de
nenhum outro homem. Era uma sensao doce e inexplicvel.
         Os olhos escuros e magnticos estavam fixos no rosto dela.
         O odor msculo inebriava Charlotte, que sentia-se incapaz de livrar-se de seu envolvimento. Aquilo deveria ser algum feitio. Nem ao menos simpatizava com
o homem, imagine qualquer outra coisa...
         Com cuidado, muito devagar, Daniel colocou-a no cho. Instintivamente, Charlotte segurou-se no palet dele, com medo de uma sbita vertigem.
'
         -  Como est se sentindo? Atordoada? - ele perguntou, gentil. - Poderia ter sido um acidente feio. Mas o que voc estava fazendo no alto daquela escada,
afinal?
         Agora que os braos dele no mais a envolviam e que Charlotte se colocara a boa distncia de seu corpo viril, os sentimentos que experimentara com a proximidade
fsica desapareceram completamente. Sentia-se apenas embaraada e irritada com toda aquela situao.
         - Bem, acho que o que eu estava fazendo  bastante bvio. Queria pegar uma pasta.
         -  Mas naquela escada, to pouco apropriada? - ele perguntou, surpreso, e apontando para as estantes, mostrou duas escadas presas ao topo e que deslizavam
facilmente, quando empurradas. - Eu mandei instalar estas escadas junto s estantes justamente para prevenir acidentes.
         As outras escadas. Charlotte engoliu em seco e sentiu o rosto em fogo ao ver como fora precipitada e fizera tudo errado.
         No satisfeito com sua explicao, Daniel dirigiu-se s escadas e mostrou-as a Charlotte.
         -  V? Aqui esto. Voc poderia t-las usado. Teria evitado este susto.
         Apesar de saber que ele tinha toda razo, Charlotte recusava-se a dar o brao a torcer, e sua vontade era dizer a ele que se no tivesse entrado to intempestivamente
na sala, com certeza no teria se desequilibrado e cado.
         -  Lembre-se, isto  um escritrio de advocacia. J imaginou se um de nossos funcionrios fosse  Justia queixar-se de falta de segurana em nossas instalaes?
- ele comentou, com ironia.
         A sala era to pequena, Daniel era to alto e grande... De repente, o local pareceu abafado. Charlotte no conseguia respirar direito. Sabia que Daniel
a observava, que os olhos dele estavam fixos nos lbios dela.
         No mesmo instante, sentiu a boca em fogo e um irresistvel desejo de passar a lngua sobre os lbios, mas ao mesmo tempo considerou que aquele era um gesto
antigo e conhecido como uma das armadilhas da seduo. Pareceria um convite.
         Mesmo correndo o risco de ser tomada por uma sedutora vulgar, Charlote traou os lbios com a ponta da lngua, observada atentamente pelos olhos escuros
de Daniel.
         "Devo estar ficando maluca, para me perturbar desta forma diante deste homem. Deve ser a falta de ar", ela concluiu.
         Com um ar de preocupao, Daniel perguntou:
         - Tem certeza de que est bem? No precisa de nada?
         Charlotte quis responder, mas conseguiu apenas articular um som sem significado. E os olhos dele no a deixavam... No era  toa que a "mdia" o adorava.
Ele devia possuir poderes magnticos que hipnotizavam as pessoas que se aproximavam.
         Aborrecida, Charlotte virou-se para o outro lado e inspirou profundamente. A salvo do olhar dele, conseguiu responder:
         - Estou muito bem, sim - ela disse, seca. Enquanto encaminhava-se para a porta, acrescentou: - Acho que voc perdeu uma boa chance, se eu tivesse cado
em cima de voc e o machucado, poderia mover uma ao contra mim, no  mesmo?
         Surpresa, ela escutou-o dar uma gargalhada e, mais admirada ainda, ouviu-o dizer:
         -  Minha tia Ldia teria gostado muito de voc.
         Com a mo na maaneta da porta, Charlotte preparava-se para sair, quando ele se aproximou e segurou-a no brao. Para Charlotte, o toque teve o efeito de
um choque eltrico, e, sem palavras, ela ficou parada a olh-lo.
         Todo seu corpo ficou em estado de alerta, e ela esperava, no sabia o qu.
         Por fim, ela falou no tom mais frio que conseguiu:
         -  O que est fazendo?
         Ele ainda lhe sorria, mas Charlotte percebeu uma breve mudana na expresso dele, tornando-se um pouco mais formal, e a sua voz j no tinha a mesma suavidade,
quando falou:
         - Queria avis-la de que talvez fosse bom voc arrumar a saia antes de sair.
         Sem dizer mais nada, ele abriu a porta e saiu. Com o rosto em fogo, ela verificou o estado deplorvel de sua saia, toda torcida e puxada quase at a cintura.
E Daniel a vira daquele jeito.
         J prxima s lgrimas, Charlotte comeou a arrumar-se e depois procurou por um pouco de ordem, recolhendo as pastas que haviam cado.
         Maldito Daniel Jefferson! Era tudo culpa dele. Ele a fizera cair da escada.
         Colocar todas as pastas deslocadas em seus prprios lugares no foi to fcil. Charlotte ficou ocupada por mais de meia hora.
         Quando, afinal, voltou  sua sala, notou com contrariedade que a porta de comunicao entre ela e Daniel estava aberta. Ele falava ao telefone e Charlotte
pde ver que havia um sanduche meio comido, junto aos papis dele. Ser que no almoara com Patrcia Winters? Bem, pouco lhe importava.
         Recolocando o fone no gancho, Daniel inclinou-se sobre a mesa e dirigiu-se a Charlotte:
         - Voc conseguiu arrumar todas as pastas, afinal?
         -  Sim - ela respondeu, com frieza, para deixar claro que no gostaria de iniciar nenhum tipo de dilogo.
         Contudo, Daniel pareceu no notar sua intenso, e continuou:
         - Estou tentando comer um sanduche, porque no tive tempo para nada na hora do almoo.
         Charlotte virou-se de lado, para ele no flagrar o rubor que lhe cobria a face. Sentia-se indignada. Ento, ele tomava a liberdade de insinuar que sara
com a "cliente", mas nem tivera tempo de almoar? Estivera ocupado com outras coisas, com certeza.
         Ela resistiu  tentao de fazer um comentrio sarcstico, porque como mera empregada e novata, ainda por cima, poderia custar-lhe caro.
         Charlotte passou o resto da tarde lendo o primeiro processo da lista que Daniel recomendara. O maior momento de alvio foi quando Daniel pediu licena e
fechou a porta entre eles, dizendo que iria receber um cliente.
         - Mais tarde - ele explicou. - Quando voc estiver mais familiarizada com os nossos casos, gostaria que participasse destas entrevistas com os clientes,
claro.
         Com certeza, ele queria que ela sentasse ao seu lado como uma insignificante secretria e no para ouvir seus comentrios, Charlotte pensou. Aquela era
mais uma prova de como ele a desconsiderava como profissional.
         Passado um bom tempo, a porta que dava para o corredor se abriu e Richard Horwich entrou.
         -  Oh! Charlotte, sinto muito no ter estado aqui para receb-la hoje de manh - ele desculpou-se com um sorriso paternal. - Precisei ir ao tribunal. Mas,
pelo que vejo, voc j est bem instalada.
         - Sim,  verdade. Muito obrigada. - Charlotte hesitou e depois falou titubeante: - Bem, eu no imaginei... no sabia que iria trabalhar apenas para o sr.
Jefferson...
         Richard Horwich ergueu as sobrancelhas, um pouco surpreso ao ouvir o formal "sr. Jefferson", em um local onde todos se tratavam com intimidade e camaradagem.
         Charlotte percebeu que ele falou, pouco  vontade:
         -  ... de fato... Eu, quer dizer... com o crescente nmero de clientes, eu e Daniel chegamos  concluso de que ele precisava de uma assistente qualificada.
         A hesitao de Horwich no deixava dvidas: tudo era conforme Charlotte havia suspeitado. Inicialmente, ela trabalharia como os outros advogados, mas quando
Daniel vira seu curriculum vitae, decidira t-la sob controle e por isso a colocou debaixo dos prprios olhos.
         Era o cmulo da humilhao. Ela, uma advogada que j tivera sua prpria banca, ser tratada como uma criana que necessita de constante superviso.
         Mal Richard retirou-se, algum bateu  porta de Charlotte.
         A garota que entrou era muito bonita e em adiantado estado de gravidez. Ela sorriu e se apresentou:
         - Meu nome  Anne e sou a secretria de Daniel... e sua tambm, claro. Tive uma hora marcada no mdico hoje - ela desculpou-se e tocou a barriga. - Estou
louca que ela ou ele nasa.
         -  E seu primeiro beb? - perguntou Charlotte, sentindo uma grande empatia pela jovem.
         - No, j tenho um menino de quatro anos. Planejei ficar em casa para cuidar do meu filho, mas  muito montono. Gosto de trabalhar fora, ter contato com
outras pessoas, e, depois, trabalhar para algum como Daniel  sempre um prazer. Ele  muito compreensivo.
         Mais uma do f-clube, pensou Charlotte.
         -  Bem, creio que ele gosta de ser considerado um bom patro. Tem de cuidar da prpria imagem, j que est sempre to exposto  "mdia".
         Charlotte percebeu que suas palavras no soaram de modo prazeroso para Anne e gostaria de dizer alguma coisa para suavizar o comentrio cido, mas nada
lhe ocorreu.
         -  Oh! No, Daniel no  assim - Anne protestou com firmeza. - Ele acredita que as pessoas trabalham melhor, quando esto felizes. E eu dou razo a ele.
         Charlotte forou um sorriso. Considerando a juventude de Anne, era compreensvel que se deixasse encantar pelo charme de Daniel.
         Mas o que havia com aquele homem que enfeitiava todos os funcionrios? Ele deveria ter usado seu charme como uma arma e tornado todos vtimas de seu encanto.
Mas aquilo no iria lhe acontecer. Daniel Jefferson podia enganar aos outros, mas no a ela.
         Como o processo que Charlotte lia era bastante intrincado e difcil, ela ficou to envolvida que nem percebeu que j havia passado a hora do fechamento
do escritrio. Na verdade, no percebera nada ao seu redor, at que a porta de comunicao se abriu e Daniel entrou.
         -  Ainda trabalhando? - ele perguntou, parando perto dela e lanando um olhar sobre a pasta que ela lia. - Hum, este  um processo bem complexo, no  mesmo?
Eu ainda no sei como vou solucion-lo. O pessoal est pedindo indenizao, e  uma reivindicao justa, mas mesmo assim... j so seis horas - ele disse, com um
tom de voz muito suave. - Aqui, ns no trabalhamos at to tarde como em Londres.
         - Mas voc ainda est aqui tambm.
         -  Eu tinha algumas coisas atrasadas que precisava pr em dia.
         Fez-se silncio e Charlotte ergueu os olhos para ele. Por um brevssimo instante seus olhares se encontraram e ela sentiu uma angstia crescer dentro do
peito e sua cabea tornar-se leve, como se flutuasse.
         -  Sei que no deve estar sendo fcil para voc - Daniel murmurou. -  bvio, pelo seu curriculum vitae...
         De repente, a sensao de flutuar desapareceu e Charlotte retomou sua atitude defensiva, e todo seu ressentimento voltou a sufoc-la.
         -  Que eu sou um fracasso? Foi isto que deduziu da leitura do meu curriculum? - ela interrompeu-o, cortante. - Eu sei que  duro. Mas voc no precisa temer
que o meu fracasso possa afet-lo. Pelo que vi hoje, voc tomou todas as precaues para que eu no haja sozinha e cometa uma tolice, no ?
         Fechando o processo, Charlotte levantou-se e acrescentou, seca:
         - J  hora de eu sair.
         Charlotte aproximava-se da porta da sada, quando Daniel falou de novo:
         - Charlotte, acho que... talvez ns devssemos conversar.
         Ela voltou-se, incapaz de esconder a angstia que embaava-lhe o brilho dos grandes olhos verdes.
         - Acha que devemos? Bem, eu acho que no. Tudo que quero  fazer o meu trabalho. Nada mais. O passado... meu passado no tem nada a ver com voc ou com
quem quer que seja.
         -  No, no, claro que no  assunto meu...
         Os lbios dele haviam endurecido, ela percebeu. Ele a contemplava de um modo estranho, como se houvesse compaixo em seu olhar e tambm decepo.
         Meia hora mais tarde, Charlotte ainda sentia uma crescente irritao oprimir-lhe o peito.
         Por que tinha de trabalhar com uma pessoa to especial e vitoriosa como Daniel? Parecia uma provao do destino. Por que ele tinha de ser to perfeito,
to bonito, to atraente? '    No teria defeitos?
         A verdade  que tudo era fcil demais para ele. Devia tudo  virtude do nascimento, do bero de ouro e no ao esforo.
         Enquanto fechava o carro e dirigia-se  casa, a conscincia de Charlotte comeou a molest-la, lembrando-a de como ele devia ter trabalhado e se empenhado
depois que ficou sozinho, sem a prtica da tia. Muito sucesso certamente devia-se a ele prprio. Seria justo se reconhecesse isto.
         No, era pura sorte, um lado de Charlotte repetia em sua cabea.
         Ela era uma pessoa sensata e honesta, porm, aps os ltimos contratempos, sentia-se dividida e, em relao a Daniel, a diviso era mais evidente. No fundo,
no queria acreditar que pudesse haver algum no mundo to irresistvel.
         - Bem, como foi o trabalho novo? - a me de Charlotte perguntou assim que a viu.
         Charlotte sacudiu a cabea com fora.
         -  Nem me pergunte.
         - Por qu? O que foi que houve de errado? Charlotte fez um rpido resumo do dia, e por fim
         concluiu:
         - E claro que Daniel Jefferson no confia em mim,
         e  por isso que me quer debaixo de seus olhos. Tenho certeza de que quando ele viu o meu curriculum decidiu que no posso trabalhar nos processos sozinha.
Bem, acho que mereo mesmo.
         - No, Charlotte, acho que voc est errada. Pelo que me disse, acho que ele tem muita considerao por voc, e se a colocou perto dele  porque preza seu
auxlio.
         Charlotte lanou-lhe um olhar de crtica.
         -  Por que ele teria alguma considerao especial por mim? No falei para voc que ele viu o meu curriculum? No, ele deve ter ficado muito contrariado
por Richard Horwich ter me dado o emprego e est procurando um meio de neutralizar o mal. Ele tem medo de que eu traga m sorte ao seu escritrio,  isto.
         -  Oh! Charlotte, o que aconteceu com voc? Voc no costumava ser assim. Est parecendo to... to amarga.
         Charlotte mordeu o lbio inferior, um pouco contrafeita.
         -  Desculpe, mame,  que...
         - Tudo bem, minha filha. - Sua me deu-lhe ta-pinhas amigveis na mo. - Eu entendo. Olhe, hoje  noite, vamos jantar s ns duas, porque seu pai vai ficar
no clube. Sara talvez aparea mais tarde.
         - Est bem. Agora, acho que  melhor eu subir e trocar de roupa.
         Depois de colocar jeans e camiseta, desceu. Teria muito trabalho pela frente, pois trouxera para casa duas pastas de processos para estud-los. Provaria
a Daniel que era competente, nem que fosse a ltima coisa que fizesse na vida.
         Porm, se Sara viesse, no teria muito tempo para estudar.
         Charlotte sorriu pesarosa para si mesma. Sempre se dera muito bem com a irm mais velha, apesar de seus diferentes estilos de vida.
         Sara levava uma vida de mulher casada tradicional, com dois filhos e um marido solcito e provedor, que gostava de t-la em casa. Sara costumava dizer que
enquanto tivesse tudo isto, no iria mudar seu estilo. Gostava de fazer a prpria gelia e de cuidar da horta. Envolvia-se com as crianas e com suas atividades
escolares.
         Charlotte admirava a irm por sua autenticidade e reconhecia que,  sua maneira, tambm trabalhava com afinco. Ela fora a nica pessoa com quem Charlotte
realmente abrira o corao a respeito de seus sentimentos de frustrao sobre a malograda tentativa de trabalhar por conta prpria.
         Talvez ela viesse visit-los para saber como fora o primeiro dia de trabalho.
         Um pouco aps o jantar, Sara chegou e Charlotte encontrava-se em seu quarto, no andar de cima, com todo o contedo do guarda-roupa espalhado sobre a cama.
         Charlotte tentava usar toda sua imaginao para descobrir que roupa poderia usar no dia seguinte que fosse confortvel sem ser muito chamativa.
         Ao ouvir os passos da irm, subindo a escada, ela se adiantou e abriu a porta.
         - O que est fazendo? Vai se mudar? - Sara perguntou, surpresa ao ver a baguna do quarto.
         - No  nenhuma mudana. Estou apenas tentando ver o que posso vestir amanh para trabalhar.
         Charlotte falou com tanto desnimo, que Sara franziu a testa e afastou um vestido para poder sentar-se sobre a casa.
         - O que est havendo, Charlotte? O que mais est dando errado?  Bevan, outra vez?
         Charlotte sacudiu a cabea, negando.
         - Nada a ver com Bevan. Alis, descobri h algumas semanas que, na verdade, nunca o amei. Foi apenas um entusiasmo, empolguei-me com suas maneiras e gostos
sofisticados. No me conformo como me deixei influenciar tanto por ele, a ponto de mudar meu estilo. Veja, por causa dele, agora estou com este guarda-roupa imprestvel
nas atuais circunstncias da minha vida. No me perdoo por ter sido to idiota. Deixei-me impressionar feito uma adolescente. Sinto-me to culpada, Sara...
         -  Que  isto? Vamos... Ningum acha que tenha culpa de nada. Acho que voc est precisando distrair-se um pouco, sair, ver gente diferente. Olhe, Tony
deve viajar por uns dias. Por que no podemos dar uma sada  noite? H um restaurante italiano que abriu h pouco tempo, parece um encanto. Que me diz?
         Charlotte franziu a testa, com m vontade.
         - Ora, vamos. Vai fazer bem para ns duas - Sara insistiu.
         Erguendo um dos vestidos, ela suspirou:
         - Gostaria de ter este seu corpinho delgado, para poder usar um destes.  to pequeno, deve ficar muito justo, no?
         -  Este modelo  um Carolina Herrera, a famosa estilista, conhece?
         - Verdade? Bem,  muito sexy. Use-o quando formos jantar fora, assim, vou receber um pouco do seu brilho, irmzinha - Sara brincou.
         Vendo a expresso pouco entusiasmada de Charlotte, ela insistiu:
         - Ento, o que me diz? Vamos sair ou no?
         - Est bem - Charlotte concordou, por fim.
         - Otimo! Vou reservar uma mesa. Bem, agora, fale-me tudo sobre seu novo emprego. No esconda nada, hein? Que tal Daniel Jefferson?  to atraente quanto
parece na televiso? - Vendo o olhar que Charlotte lhe lanou, Sara se interrompeu. - Que foi? O que  que eu disse de errado?
         - Pensei que fosse ocupar um cargo independente na firma dele, mas enganei-me por completo. Estou trabalhando como ajudante de Daniel Jefferson. Tenho certeza
de que ele no me queria em sua empresa, Sara. Ele no confia em mim.
         - Ele lhe disse isto?
         - No com palavras, mas tudo  bastante bvio.
         - Voc no acha que pode estar tirando concluses apressadas? - Sara procurou consol-la. - Vamos encarar os fatos, Charlotte. Voc vem se sentindo muito
deprimida ultimamente e tende a ver tudo sob um prisma muito escuro.
         - No  bem assim, Sara. Eu sei. Tudo que ele diz, tudo que ele faz s serve para realar as diferenas entre ns. Sinto-me to consciente do meu fracasso,
perto dele. E to humilhante saber que no sou digna de confiana. Se eu no precisasse deste emprego to desesperadamente...
         - Sabe o que penso? Que voc est sensvel demais e reage de modo exagerado ao que lhe acontece - Sara comentou, com toda a gentileza de que era capaz.
- Sei que est se sentindo magoada e...
         - E o qu? Sou sensvel demais s porque no caio aos ps do maravilhoso Daniel Jefferson como todo mundo? S porque no me rendi aos seus encantos no primeiro
dia? Bem, isto seria impossvel, Sara. Todo o pessoal da firma no faz outra coisa a no ser elogi-lo. Isto me enche de revolta. E um homem que recebeu tudo numa
bandeja, sem nenhum esforo. No sabe o que  passar pelo que passei, cheia de credores, tendo de comear de baixo outra vez. E ele pensa que tem o direito de me
julgar...
         - Charlotte, querida, voc no estar sendo um pouco... preconceituosa demais em relao a ele?
         Charlotte olhou para a irm com os olhos cheios de pesar, como se tivesse sido trada.
         - Ah! Eu sei. Voc acha que tenho inveja do sucesso dele.
         - No,  claro que no  o que penso - Sara assegurou-lhe. - E no acho que voc seja um fracasso. Apenas acredito que os ltimos acontecimentos afetaram
seu julgamento das coisas. E, sejamos justas, Charlotte,  compreensvel que voc se sinta um pouquinho ressentida com Daniel Jefferson e todo este sucesso. Faz
parte da natureza humana. Mas, de qualquer maneira, voc anda se comportando de modo muito diferente de sua verdadeira natureza. E, como diz o velho ditado, se todos
os outros o elogiam...
         - Eu  que estou errada, no ? Mas ele no confia em mim e no me queria l.
         -  Bem, mas o caso  que voc est l e, com o tempo, ele ver que est errado.
         - No o perfeito Daniel Jefferson.
         Sara observou-a em silncio por um tempo e depois disse:
         -  Ento, voc no gosta de Daniel Jefferson.
         - No gosto? Detesto-o - garantiu Charlotte com convico.
         Levantando-se para deixar o quarto, Sara comentou:
         -  Tome cuidado. Sabe o que dizem da antipatia? Do dio? Que so o outro lado do amor.
         Sara riu, fechando a porta, mas Charlotte ficou pensando, com o corao pesado.
         Ela conhecia sua irm muito bem. Se Sara dissera que talvez estivesse com inveja de Daniel, era um caso para pensar.
         O resto da noite Charlotte lutou contra aquele pensamento, mas ele teimava em voltar, deixando-a muito insegura.
         Seria mesmo verdade que transformara-se numa invejosa? E que todo seu rancor contra Daniel no era somente devido  desconfiana dele, mas  simples inveja?
Era uma ideia difcil de digerir.
         Charlotte planejara ir para cama cedo, mas, quando finalmente conseguiu recolher-se, j era mais de onze horas e ela estava exausta das tenses do dia.
No conseguira nem abrir os processos que trouxera para estudar. Daniel jamais teria um nico motivo para reclamar de seu trabalho. Iria mostrar-lhe quem era Charlotte
French. Poderia ter fracassado administrativamente, mas era uma excelente advogada.
         Quando ela fechou o processo, seus olhos e suas costas doam. O caso que acabara de ler era muito complexo e surpreendera-a que Daniel o houvesse aceito.
No envolvia dinheiro, nem prestgio, mas muito trabalho rduo. Se ela fosse mais ingnua, pensaria que ele aceitara o caso por pura bondade.
         Franzindo a testa, Charlotte se perguntou mais uma vez se estaria julgando-o mal. No, no podia estar errada. Ele era mesmo um esnobe, com uma imagem pblica
a ser preservada e de forma alguma o tipo de pessoa dada a boas aes. Conhecia muitos homens como ele, eram muito parecidos com os quais Bevan convivia.
         Mas... e se estivesse errada?
         Todos que trabalhavam para Daniel gostavam dele.
         No queria ser injusta, mas queria acreditar na imagem que fizera dele. Precisava reprov-lo. Era uma espcie de proteo. Proteo contra o qu?
         Por um momento ela lembrou-se do magnetismo dos olhos dele pousados nos dela, sentindo a boca seca e um arrepio percorrendo-lhe a espinha. Daniel estava
ocupando tempo demais de seus pensamentos.


        CAPTULO IV

         - Charlotte, voc poderia vir aqui um minuto, por favor?
         Colocando o processo que estava lendo de lado, Charlotte dirigiu-se  sala de Daniel Jefferson.
         Ao v-la, ele sorriu e mandou-a sentar-se.
         "Estarei sendo injusta, por julg-lo to mal?", ela pensou, pela centsima vez.
         Depois da conversa com Sara, depois do maior con-tato que tivera com os demais funcionrios da firma, era forada a aceitar que Daniel era adorado por todos.
         Anne, que tambm se encontrava na sala, recebeu-a com um sorriso.
         - Preciso sair e ver um cliente hoje  tarde. Ele  invlido e no pode vir ao escritrio. Gostaria que viesse comigo - disse Daniel.
         -  John Balfour? - perguntou Anne. - Ser que ele quer modificar o testamento mais uma vez? Ser a quinta, este ano.
         -  Ele sofre com a solido, ningum da famlia o visita e ele sente falta de algum com quem conversar.
         -  Algum com quem discutir, voc quer dizer - Anne riu. - E se o sr. Balfour  to solitrio, ele poderia recorrer a uma dessas instituies que auxilia
pessoas ss.
         - Ele  muito orgulhoso, Anne - Daniel falou de modo gentil, com um tom de voz onde se notava verdadeira compaixo. - Ele no quer caridade. Comigo, ao
contrrio, se ele diz que quer falar sobre o testamento, tem uma boa desculpa para conversar com algum, e seu orgulho est a salvo.
         -  Eu sei que sua visita vai levar mais tempo do que qualquer outra que faria a um cliente normal, e voc cobrar uma bobagem abaixo de todas as tabelas.
- Anne sorriu, mal escondendo a admirao. - s vezes, acho que voc deveria ter sido um psiclogo e no um advogado.
         - No custa nada preocupar-se com as necessidades e fraquezas dos outros. Afinal de contas, todos ns, mais cedo ou mais tarde na vida, precisamos da ajuda
de algum.
         Charlotte ouviu aquele comentrio em silncio. Pessoalmente, no podia imaginar aquele homem precisando de algum, mas percebeu que ele falava com autntica
convico. Ela tentou imaginar Bevan ou qualquer de seus "amigos" fazendo o que Daniel se propunha a fazer, mas no conseguiu. No estilo de Bevan, tudo estava relacionado
com dinheiro, com lucro, incluindo seu prprio noivado. Quando Charlotte comeou a representar uma perda...
         No lamentava nem um pouco a ausncia de Bevan, mas ainda doa lembrar que fora enganada com tanta facilidade.
         - Voc gostar de John - Daniel afirmou a Charlotte, lanando-lhe um olhar avaliador que a fez estremecer. - Vocs so ambos lutadores.
         Uma lutadora! Ela? Como ele podia pensar assim? A prpria Charlotte sabia o quanto fora covarde, deixando-se abater diante do primeiro obstculo. Mas no
tivera sada. Talvez tivesse sido possvel continuar, "lutar" um pouco mais, porm no passaria de um adiamento. Tambm no poderia enganar seus clientes, dando
a entender que estava tudo bem.
         Que Daniel a considerasse uma lutadora era por demais surpreendente.
         -  Receio que talvez voc perca parte da hora de seu almoo - Daniel disse.
         -  No tem importncia - Charlotte respondeu, procurando ser cordial.
         Anne havia deixado a sala e Charlotte encontrava-se de p, diante da mesa de Daniel, segurando com fora um dos processos contra o peito, como se fosse
um escudo para proteg-la. Proteg-la do qu? De quem?
         Sobre a mesa dele, ela reconheceu a pasta referente a Patrcia Winters e automaticamente tornou-se mais rgida.
         Quando Daniel percebeu que ela olhava para a pasta, colocou um brao sobre a mesa, ocultando-a de certa forma. Aquele gesto enfureceu Charlotte. Por que
ele achava necessrio esconder a pasta? Que mal ela poderia causar, por apenas olhar a capa de um processo?
         - Como est indo com os processos? - Daniel perguntou.
         - Estou na metade da leitura - ela informou, com um tom frio e formal.
         Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso.
         -  Na metade? Deve ser uma leitora extraordinariamente rpida.
         Charlotte sentiu o rosto queimar. O que ele estaria insinuando? Que era superficial e lia pulando pargrafos inteiros, sem prestar muita ateno? Era evidente
que ele procurava defeitos. Se tivesse dito que lera menos, ele a teria chamado de lenta.
         No, no era imaginao, ela pensou. Por mais gentil que ele fosse com todos, Daniel no gostava dela.
         Voltando ao seu escritrio, ela censurou-se por ficar to magoada com aquela verdade. Afinal, desde o comeo sabia que ele no a quisera.
         O que no compreendia era por que dava tanta importncia a este fato. A nica coisa que importava  que ela conseguira o emprego.
         Mesmo tentando ser lgica, lgrimas encheram-lhe os olhos e Charlotte precisou lutar para que no lhe escorressem pelo rosto.
         "Partiremos em meia hora", Daniel tinha dito.
         Charlotte apanhou a bolsa, colocou um bloco de anotaes dentro dela. No tinha a menor ideia por que Daniel a queria ao lado dele naquela visita. Mas,
enfim, ele era o patro, e suas decises no deviam ser questionadas, no era mesmo?
         - Pronta?
         A voz de Daniel sobressaltou Charlotte, que no havia percebido sua presena. Estivera to concentrada na leitura...
         Daniel posicionara-se bem  sua frente, intimidando-a com sua alta estatura, com sua aura mscula, fazendo-a sentir-se desajeitada. Ao levantar-se, derrubou
a pasta e o blazer.
         - Deixe-me ajud-la - disse Daniel, com sua voz aveludada.
         Ansiosa, Charlotte fazia um grande esforo para que ele no notasse seu nervosismo, enquanto ajudava-a a vestir a pea de roupa.
         De repente e pela primeira vez desde que comprara aquele traje, percebia o quanto a parte superior era transparente. Por baixo usava apenas um suti de
renda que nem ao menos disfarava as arolas rosadas de seus seios. Comportar-se de modo sexualmente provocante no fazia parte dos hbitos de Charlotte, que considerava
tal coisa abaixo de seu nvel.
         Sabia que muitos homens a consideravam atraente, mas jamais procurara realar seus dotes naturais. Mas, naquele momento, com Daniel fisicamente to prximo
a ela, compreendeu que ele poderia interpretar toda aquela generosa transparncia como um sinal de disponibilidade, como uma maneira deliberada de chamar a ateno.
         - Muito obrigada - ela murmurou, quando ele a auxiliou a vestir-se, os dedos fortes tocando-lhe a pele. Impossvel no sentir seu calor e sua fora.
         -  Por nada - ele respondeu, olhando-a de modo srio e enigmtico.
         Teria ele percebido como ela ficara tensa? Como seus seios eram visveis? Oh! Esperava que no! Seria muito humilhante se ele descobrisse como a perturbava.
Charlotte no se conformava com sua reao a Daniel, pois j trabalhara com tantos homens e nunca isso acontecera. Por que com "aquele", ficava to transtornada?
         Daniel era muito atraente, no tinha como negar. Havia uma combinao de virilidade e meiguice que o tornava um dos homens mais sexies que j vira.
         No era de admirar que a milionria Patrcia Win-ters o quisesse como segundo marido. Iriam mesmo casar? Sem dvida, formavam um belo par.
         Lembrando que os assuntos pessoais de Daniel no lhe diziam respeito, Charlotte foi ao encontro dele.
         No entanto, sentia-se culpada e incomodada por ver como seu corpo reagia  proximidade de Daniel. Ser que ele percebia?
         - Meu carro est estacionado na rua - ele disse, enquanto  caminhavam  pela  recepo.   Quando  ele abriu a porta, o nico carro que Charlotte viu foi
um Jaguar de modelo muito antigo, embora estivesse muito bem polido.
         Como se lesse o pensamento dela, Daniel explicou:
         - Este carro era da minha tia Ldia. Ela o deixou para mim.  um modelo que j no existe mais, mas como o cliente que vamos visitar agora era muito amigo
de minha tia, prefiro us-lo. Sei que ele o ver da janela.
         Charlotte no fez nenhum comentrio.
         O Sedan tinha assentos de couro e aparentava bastante uso. A raiva que ela sentira h alguns instantes deu lugar a um sentimento vazio, como se ela estivesse
sendo excluda de um crculo mgico do mundo dele ao qual ela jamais pertenceria. Ele tinha tanta compaixo pelos outros, por que no podia ter um pouco por ela?
         Charlotte rangeu os dentes. Certamente no queria sua compaixo, que ideia absurda!
         Daniel dirigia muito bem e com cuidado, e, enquanto ela observava a destreza com que ele trocava as marchas, lembrou-se de um comentrio de uma amiga de
Londres que dissera que se podia adivinhar a maneira de um homem fazer amor pelo modo como ele dirigia um carro.
         Bevan dirigia seu Porsche, ltimo modelo, rpido demais, cantando os pneus, impaciente e sem considerao com os demais motoristas. O oposto de Daniel.
         A casa onde John Balfour vivia era um pouco fora dos limites da cidade e abrigava outros idosos igualmente solitrios. O jardim era bonito e bem cuidado
e haviam algumas pessoas jogando cartas sob as rvores.
         - John poderia ficar aqui fora, pois ele tem uma cadeira de rodas, e usufruir a companhia dos outros. Mas  muito teimoso.
         - Talvez ele prefira estar sozinho, consigo mesmo - Charlotte sugeriu.
         -  Talvez - Daniel concordou, subindo a escada que levava  casa.
         Porm, se o velho John gostasse tanto de sua prpria companhia, no precisaria usar artifcios para chamar Daniel e ter com quem conversar, ela pensou.
         Charlotte olhou Daniel de soslaio e admitiu internamente que talvez ele tivesse uma sensibilidade acima do comum para perceber a solido orgulhosa do amigo.
         Ao entrarem na parte da frente da casa, Daniel segurou-lhe o brao e conduziu-a para a direita.
         -  por aqui - ele disse.
         Ao senti-lo tocar-lhe o brao, ela virou-se to rpido que chocou-se contra ele. A proximidade fsica era muito grande, porm Daniel no fez um movimento
de recuo e Charlotte ergueu os olhos para ele, tendo no rosto um ar de susto e impacincia.
         - Acabo de descobrir como voc  pequenina e frgil. - Daniel comentou, em voz baixa.
         A reao de Charlotte foi de indignao, diante do comentrio to pessoal, e alm disto no gostava que lhe dissessem que era pequena.
         - Tenho um metro e sessenta e quatro - ela respondeu, contrariada. - No sou to pequena assim.
         Rugas pequeninas surgiram ao redor dos olhos dele, enquanto ela notava que ele fazia um esforo para no rir. Por certo, ele preferia mulheres altas. Como
Patrcia Winters.
         -   por isto que usa estes sapatos de saltos to altos?
         -  No h nenhum exagero nos meus sapatos - Charlotte retrucou com frieza.
         Seus sapatos eram autnticos Charles Jourdan, caros e sofisticados, e talvez to cedo no pudesse comprar outros iguais. Provavelmente, ele pensava o mesmo
a respeito de sua roupa. Sentindo-se miservel, afastou-se e comeou a caminhar pelo corredor.
         Mais uma vez, se perguntou desesperada por que havia dado toda sua antiga roupa. No eram de grife, mas eram vestidos clssicos que ficariam bem em qualquer
hora e em qualquer lugar.
         Seu pai brincara a respeito do diminuto tamanho da saia, dizendo que na dcada de sessenta as mulheres usavam-na ainda mais curta. Mas no era nenhum conforto
lembrar disto naquele momento.
         Em silncio, Charlotte caminhou ao lado de Daniel, e quando ela percebeu que ele diminua os passos, voltou-se e o viu parar em frente a uma porta.
         Daniel bateu de leve e, sem esperar resposta, entrou.
         -  Ol, John - Charlotte ouviu-o dizer. - Hoje trouxe-lhe uma nova visitante.
         Com estas palavras, ele afastou-se para deixar Charlotte passar  frente.
         Era um quarto de bom tamanho, com uma lareira ladeada por poltronas confortveis. Em um canto havia uma larga cama e tambm uma cadeira de rodas. O homem
sentado na cadeira tinha cabelos brancos e pele castigada pelo tempo.
         - Hum... - ele resmungou - ela  bastante bonita... ainda bem.  sua nova namorada?
         Apesar do constrangimento de ser tomada por namorada de Daniel, Charlotte no se ofendeu com as maneiras rudes do idoso. Ela j precisara tratar de negcios
com homens idosos e j sabia que muitas vezes sua exagerada franqueza no era maldosa, eles apenas pensavam que estavam sendo galantes.
         - No. Charlotte  a minha nova assistente, John. Ela  advogada.
         - Advogada, hem? Humm... Bem, ela no se parece muito com Ldia.
         Pela maneira como ele falou, Charlotte teve certeza de que Ldia deveria ser seu parmetro de uma profissional feminina.
         - No, fisicamente no se parecem, mas... h certas semelhanas - Daniel disse, para surpresa dela. - Charlotte perdeu a hora do almoo para vir comigo,
ento sugiro que voc use este sininho e chame algum para lhe servir uma xcara de ch.
         John Balfour resmungou que ningum precisava lhe dizer como receber uma visita, nem que precisassem lembr-lo de certas etiquetas.
         -  Deveria fazer voc me devolver o que anda me cobrando para refazer meu testamento - o velho queixou-se, enquanto fazia soar a campainha, mas Charlotte
notou que ele estava feliz por ter companhia e poder compartilhar de um ato social, por mais simples que fosse.
         Daniel no parecia ter nenhuma pressa em iniciar a conversa sobre negcios. Discutia com John Balfour os novos planos da prefeitura para mudar o centro
da cidade, e, como ambos tinham diversos pontos de vista sobre o assunto, parecia que no chegariam nunca a um acordo.
         -  Vejo que voc ainda dirige o carro de Ldia - John observou de repente, ao olhar pela janela. - Sua tia era uma mulher excepcional, seu pai no lhe chegava
aos ps. E... quanto a voc... no est crescendo demais, no? Com todo este falatrio nos jornais e televiso, estas coisas podem subir  sua cabea.
         -  Espero que no John - foi a resposta honesta de Daniel.
         No momento seguinte, uma jovem entrou no quarto empurrando um carrinho com o servio de ch e sanduches e bolos. Daniel levantou-se, gil, para ajud-la,
e Charlotte percebeu como a jovem corava e retribua o sorriso de modo tmido, mas sem esconder o prazer.
         -  Graas  Deus voc no a deixou servir o ch. Ela teria espalhado tudo por aqui - John comentou, quando a garota saiu. Logo em seguida perguntou, de
maneira seca: - Voc no continua se encontrando com aquela viva Winters, espero.
         - O que h de reprovvel nisto? O marido dela foi meu cliente e muito bom. Procuro manter a tradio, apenas - respondeu Daniel, bebericando o ch.
         - Aquela mulher  uma sanguessuga. Ela cravou as garras afiadas no pobre Paul. Ouvi dizer que ficou com tudo e que Gordon foi deixado  mngua. Imagine
voc, o filho de Paul.
         -  Gordon era apenas o enteado de Paul, John - Daniel interps com muita pacincia. - Voc sabe que ele no tem direitos perante  lei aos bens de Paul
Winters.
         - Perante  lei, talvez no, mas todos sabem como os dois eram prximos e amigos. s vezes, nem um filho verdadeiro  to querido. Gordon era tudo para
ele, antes que esta mulher aparecesse. Uma mulher de vinte e trs anos casando-se com um homem da idade de Paul. , no mnimo, suspeito.
         - , mas s vezes acontece.
         - Sim, acontece, e ns todos sabemos por qu.
         O rosto de Daniel tornou-se mais tenso e Charlotte relanceou um olhar ansioso a John Balfour. Era claro  ele era o tipo de pessoa que gostava de provocar
polmicas, e devia saber que Daniel no ficaria contente ao ouvi-lo falar daquela forma de Patrcia. Principalmente diante de outra mulher.
         Sem saber por que, Charlotte sentiu um desejo muito grande de mudar de assunto e, evitando olhar diretamente para Daniel, interrompeu John.
         -  Esta casa parece muito antiga - ela disse. Jamais gostara de discusses. Nada tinha a ver com o fato de querer proteger Daniel contra o injusto tratamento
que John estava lhe dando. Afinal, por que e para que ela quereria proteg-lo? -  Deve ter uma histria fascinante - continuou. O olhar que John Balfour lhe lanou
foi extremamente sarcstico.
         - No sei - ele disse. - Tenho oitenta e trs anos e no oitocentos e trs.
         -  Pare de implicar com a minha assistente, John - Daniel pediu. - Voc sabe muito bem o que Charlotte quis dizer com seu comentrio. Na verdade, a casa
tem uma histria muito interessante, sim. - Ele sorriu para ela. - Pertencia a minha tia...
         - At que ela a deu para  cidade, para servir de lar para os idosos - John Balfour interrompeu.
         - Tia Ldia deixou a casa para a cidade, sim, mas ela esperava que a tornassem um centro cultural. A prefeitura  que decidiu torn-la um lar para idosos.
Esta foi a casa dos pais de minha tia e ela herdou-a. Mas como seus pais no aprovavam sua profisso, ela no quis morar aqui e, ao morrer, doou-a.
         - Ela deve ter sido uma mulher notvel, principalmente para sua poca - Charlotte admitiu.
         - Sim, ela era - Daniel concordou, e havia a sombra de uma tristeza em seu olhar, como se ainda fosse doloroso falar dela. - Tia Ldia foi uma filantropa
na verdadeira acepo do termo e...
         Olhos Feiticeiros
         -  Ldia foi a mulher mais teimosa que j vi em toda minha longa vida - interrompeu John Balfour.
         Daniel riu.
         -  Bem, s vezes ela podia ser bastante teimosa, sim. Um trao que vocs dois tinham em comum, no , John?
         O homem idoso fez uma careta, mas no contradisse Daniel.
         As modificaes no testamento de John Balfour levaram cerca de duas horas. Eram detalhes mnimos, coisas que quase no fariam nenhuma diferena.
         Charlotte ficou surpresa e fascinada ao ver a pacincia que Daniel dedicava aos pedidos e observaes do amigo.
         Quando finalmente acabaram, Charlotte despediu-se e dirigiu-se  porta e, naquele momento, ouviu John Balfour comentar:
         - Voc no est enganado, Daniel? Tem certeza de que ela  uma advogada? Ldia jamais teria usado uma saia como esta, fosse moda ou no.
         Charlotte sentiu o calor subir-lhe pelas pernas at o rosto. Segurou o trinco da porta com tanta fora que os ns dos dedos tornaram-se brancos. No ousava
virar-se.
         - Todas as mulheres se vestem assim agora, John - explicou Daniel, e pelo tom da voz dele Charlotte sabia que estava sorrindo.
         Descendo as escadas ao lado de Daniel, ela evitava olhar na direo dele, to agitada, que seu corao parecia querer saltar do peito.
         Ultimamente havia sofrido tantas humilhaes que pensar em mais aquele comentrio mordaz trazia-lhe lgrimas aos olhos. Ela, que sempre se orgulhara de
ser to controlada.
         No entanto, todo aquele controle, aquela auto-segurana acabara-se, deixando-a supersensvel e emocional.
         Quando Daniel parou no meio do caminho para trocar algumas palavras com um dos funcionrios da casa, ela aproveitou para andar na frente e enxugar os olhos
com um leno de papel.
         Estava jogando o papel fora, quando Daniel alcanou-a, percebendo-lhe o gesto.
         -  O que h de errado? - ele perguntou, com a testa franzida de preocupao. - Voc no ficou aborrecida com o que John disse sobre sua roupa, no  mesmo?
No fique. A maneira dele, acho que estava tentando fazer-lhe um elogio.
         -  Entendi. E se eu no gostar que as pessoas faam este tipo de comentrios, devo usar outro tipo de roupa, claro. J mais senhora de si, Charlotte virou-se
para encarar Daniel. - Bem, para sua informao, acho que devo dizer-lhe que tenho que usar estas roupas. No tenho escolha. No possuo as condies financeiras
para substitu-las. Isto  o que acontece com pessoas cujos negcios faliram, sabia? Claro que no. O que pode saber de fracassos? - ela perguntou, com as emoes
fugindo ao controle. - Acha que gosto de ver as pessoas olhando para mim e se perguntando por que me visto de modo to inadequado ao meu trabalho?
         - Charlotte... - Daniel tomou-lhe o brao e puxou-a gentilmente para si, debruando-se sobre ela e falando com uma voz suave e tranquilizante. - Minha querida
jovem, no h nada de errado com suas roupas. Na verdade... falando apenas como homem, claro, acho que voc... acho que elas so muito, muito atraentes.
         Como Charlotte o encarava com olhos interrogativos, ele deu-lhe um sorriso muito jovem que a fez lembrar um garoto travesso.
         - Por favor, no me interprete mal, mas h de fato alguma coisa excepcionalmente sexy em uma mulher usando saia curta...
         -  sobre isto que estava falando - Charlotte interrompeu, spera. -  este tipo de comportamento machista dos homens que me aborrece e constrange. Voc
homens so todos iguais. Sempre pensam que as mulheres se vestem com um nico objetivo em mente.  bom que saiba que me visto para agradar a mim mesma e no para
atrair os homens.
         Charlotte estava sendo pouco coerente e no fundo de seu corao sabia que no era sincera. Comprara aquelas roupas por causa de um homem, sim. Bevan insistira
tanto para que ela mudasse seu estilo de vestir, que afinal cedera s para agrad-lo.
         Um n na garganta, uma mistura de autocomiserao e auto-condenao obrigou-a e calar-se.
         - Desculpe.
         Ela ouviu a voz de Daniel como se viesse de muito longe. Ele ainda segurava-lhe o brao, porm a presso de seus dedos havia diminudo e o leve toque parecia
mais uma carcia.
         Uma onda de doura, um desejo de relaxar a invadiu, mas antes que se entregasse  fraqueza ela recuou com um gesto brusco e ele a soltou.
         Daniel precisou apressar o passo, pois Charlotte disparou em direo ao carro.
         - Charlotte? - ele chamou baixinho. -  mesmo verdade que est sem recursos para comprar roupas?
         Bem, pensou Charlotte, j suportei bastante. Fora um erro tolo ter-se deixado levar pela emoo e desabafado sobre sua verdadeira situao financeira diante
de Daniel.
         - Por favor, no quero mais falar sobre este assunto - ela respondeu, seca.
         Enquanto Daniel abria a porta do carro, pareceu-lhe ouvi-lo dizer:
         - Outra vez... H mais alguma coisa sobre a qual voc no queira falar?
         Sem ter muita certeza do que ouvira, Charlotte decidiu ignorar a pergunta, que lhe pareceu ser a maneira mais sbia de evitar outra confisso tola.
        CAPTULO V
         - Voce no se esqueceu do nosso compromisso de hoje  noite, hein?
         Charlotte sorriu ao ouvir a pergunta de Sara ao telefone.
         - No. No esqueci. Combinamos ir jantarmos juntas naquele novo restaurante italiano que voc quer conhecer.
         -  Isto mesmo. Ento, devo aparecer por l perto das sete e meia. E, no esquea, deve usar aquele seu vestido justinho.
         Charlotte gemeu no fone e depois riu.
         - Vou pensar a respeito ainda e...
         -  Charlotte, voc tem o processo Highan?
         Ao ouvir a voz de Daniel chamando-a, Charlotte sussurrou no aparelho:
         - Escute, Sara, preciso desligar agora. Nos veremos hoje  noite. Tchau.
         Charlotte desligou o telefone.
         Desde seu desabafo com Daniel, ela vinha se sentindo muito pouco  vontade perto dele. O que teria dado nela para fazer aquela estpida declarao sobre
no ter dinheiro nem para comprar roupas novas? A ltima coisa que desejava na vida era despertar a piedade de algum, muito menos de Daniel. E, no entanto, suas
desastrosas palavras tinham sido um autntico convite  compaixo.
         Se no fosse pela presena de Daniel, estaria muito feliz em seu novo emprego. Para quem perdera tudo, aquele escritrio de advocacia era um achado, uma
luz no fim do tnel. Mas o tempo todo ela estava por demais consciente dele, de seus movimentos, de sua voz e tambm do fato de que ele no confiava nela.
         Aquela situao era como uma permanente ferida aberta em seu orgulho. Era difcil perdoar Daniel por faz-la sentir-se daquela forma.
         Na hora do almoo, Charlotte foi com Ginny a um pequeno restaurante distante algumas ruas do escritrio.
         Era um prazer caminhar ao ar livre, aquecida pelo sol, em ruas que no tinham a mesma agitao de Londres.
         Charlotte divertiu-se ao ver como os garons e clientes lanavam olhares curiosos e apreciadores a Ginny, mas depois percebeu que tambm era alvo da ateno
de um homem sentado sozinho em uma das mesas.
         Ignorando o olhar de admirao, ela sentou-se junto com Ginny.
         Ela era muito tagarela e falava sem parar sobre seus planos para o fim de semana.
         - Pobre sr. Jefferson! - Ela riu. - A sra. Winters telefonou esta manh avisando que vir visit-lo hoje  tarde.
         - Por que "pobre"? Talvez ele queira v-la tambm - Charlotte respondeu.
         -  Impossvel! - Ginny assegurou. - Ela no  o tipo dele. Tenho certeza de que ele no a encontraria se no fosse por...
         Ginny interrompeu-se e corou, fazendo Charlotte compreender que ela pensara melhor sobre jo comentrio que ia fazer e resolvera calar-se. Se havia alguma
coisa no relacionamento entre Patrcia Winters e Daniel que ela no devesse saber... tudo bem.
         Ginny no voltou a mencionar Daniel e Patrcia outra vez, mas o prazer de Charlotte no almoo tinha desaparecido.
         Enquanto as duas caminhavam de volta ao escritrio, Charlotte se perguntava por que a idia de um relacionamento entre os dois a deixava to deprimida.
         Afinal de contas, por que deveria se interessar pela vida particular de Daniel?
         Ao entrar em sua sala, a porta de comunicao com Daniel estava semi-aberta.
         Charlotte podia ouvir vozes vindo do escritrio dele e j ia fechar a porta quando escutou-o mencionar seu nome.
         Imediatamente, ela parou, sabendo que deveria afastar-se e no entreouvir uma conversa particular. Mas permaneceu parada, incapaz de mover-se.
         - Mas por que ela  sua assistente pessoal, Daniel? Voc sempre preferiu trabalhar sozinho. Ouvi-o dizer isto algumas vezes e, de repente, voc chama esta...
esta mulher. E por que uma mulher? Se queria algum para trabalhar com voc, por que no escolheu um homem?
         Charlotte prendeu a respirao. Apertava as mos com tanta fora que suas unhas quase penetravam na palma. Sentia uma tenso dolorosa em todos os msculos,
enquanto aguardava a resposta de Daniel.
         - No fui responsvel por sua contratao, Patrcia. Richard a entrevistou. Ele... ou melhor, ns dois achamos que o volume de trabalho estava se tornando
muito pesado. Estvamos quase sem tempo para nos dedicarmos pessoalmente a nossos clientes. Como voc, agora, por exemplo.
         -  Sim, concordo. Mas ela  sua assistente e no de Richard. Ela est trabalhando diretamente com voc, nos seus casos - Patrcia insistiu em queixar-se.
         Parada e imvel, pareceu a Charlotte uma eternidade at escutar a voz de Daniel outra vez.
         -  Sim - ele respondeu de modo casual. - Pareceu-me uma resoluo sbia que ela trabalhasse inicialmente comigo em vez de trabalhar de modo independente.
         -  Voc quer dizer que ela no est  altura do emprego? Se  assim, por que Richard a contratou? Ela no me parece ser to atraente.
         -  Ela  uma pessoa extremamente qualificada - Daniel respondeu, sem acrescentar muito ao que j dissera.
         - Sei - Patrcia concordou, com ironia na voz. - To bem qualificada que voc precisa supervisionar o trabalho dela. Bem, deixe-me dizer-lhe, Daniel, no
quero esta sua assistente envolvida no meu processo, por favor.
         Ambas as vozes diminuram e Charlotte concluiu que eles deveriam estar se dirigindo para a porta de sada.
         Ainda sem se mexer, ela aguardou at ter certeza que os dois haviam sado, depois fechou a porta de comunicao entre as duas salas. No mesmo instante apoiou-se
sobre ela e todo seu corpo tremeu de raiva.
         Nos ltimos dias, comeara a pensar que fora injusta e que Daniel no a considerava aqum de sua posio. Mas estivera certa desde o incio. Ele jamais
confiara nela.
         Todas as conversas que haviam tido, as atenes de Daniel para com ela no passavam de iluso.
         Agora no tinha mais dvida. Odiava Daniel. Mas admitia: no o odiava tanto quanto odiava a si mesma.  Seu desejo era to grande de ir ao encontro dele
e  dizer-lhe sem rodeios o que ele podia fazer com aquele emprego, que o faria, caso soubesse onde ele tinha ido.
         Embora preferisse morrer a admitir tal coisa, sob toda aquela raiva havia um tumulto de sentimento, muito semelhantes  rejeio, ao cime, uma dor misturada
 emoo que uma mulher sente quando o homem que deseja no a quer e prefere outra. Emoo perigosa!
         O que havia de errado com ela?, Charlotte se perguntou. Era bvio que no sentia a menor atraco por Daniel. No era o seu tipo e, alm disso, como poderia,
sabendo o que ele pensava dela?
         Seu orgulho jamais permitiria que pensasse duas vezes em um homem que a julgava to nfima.
         Contudo, no podia esquecer a compaixo e a bondade que ele demonstrava para com pessoas como John Balfour. Mas talvez fosse diferente. Provavelmente, quando
jovem, John Balfour nunca demonstrara ser um fracassado e um incompetente.
         Teria sido prefervel que Daniel tivesse sido honesto com ela, em vez de esconder seus reais sentimentos com sorrisos e maneiras amigveis.
         Muitas vezes, quando trabalhavam juntos e ele a olhava de um modo especial e lhe sorria, Charlotte esquecia seu o antagonismo e o ressentimento e sentia
um doce calor invadi-la e uma atrao irresistvel lev-la para ele. Queria que ele a aprovasse, a elogiasse. Porm, jamais voltaria a ceder quela fraqueza.
         Virtualmente, ouvira Daniel admitir que a queria perto dele, por no confiar em seu trabalho sem superviso. O que mais precisava ouvir?
         Quando, afinal, chegou a hora de encerrar o expediente Charlotte suspirou de alvio.
         Ao entrar no carro, ela disse a si mesma que era ridculo sentir-se to magoada pela opinio de um homem, quando j estava cansada de saber, desde o primeiro
dia, que ele no a considerava  altura de seu escritrio. Mas doa, como se fosse uma grande descoberta.
         Naquela tarde, ela desejara confrontar Daniel e dizer-lhe que no precisava que ningum lhe jogasse no rosto seu insucesso. Ela prpria reconhecia sua incompetncia.
         O que ela desejava de Daniel?, Charlotte perguntou-se diante do espelho, enquanto se arrumava para ir jantar com Sara. Era um sacrifcio sair de casa, sentindo-se
to infeliz, mas o faria pela irm.
         A compreenso de Daniel... sua compaixo... sua bondade... sua aprovao e admirao. Por qu? Por que a opinio dele se tornara algo to importante para
ela num espao to curto de tempo?
         Charlotte empurrou a pergunta para o fundo de sua mente, com medo de enfrentar uma resposta assustadora.
         - Voc est to silenciosa, Charlotte - comentou Sara, enquanto dirigia o carro em direo  cidade. - Est tudo bem?
         -  Sim, tudo bem - Charlotte respondeu, procurando aparentar despreocupao, mas percebendo que no enganava a irm.
         -  Por que no est usando o vestido justinho? - Sara perguntou, meio acusatria.
         - No sei, acho que esqueci.
         Charlotte usava um vestido de jrsei preto que caa frouxamente pelo corpo, modelando algumas formas, escondendo outras, que lhe parecera mais apropriado
para a situao. Embora fosse sexy, como tudo o que Bevan a fizera comprar, era tambm muito elegante.
         - Hum... Bem, admito que gosto do que voc est. Eu nem conhecia - elogiou Sara.
         Ao chegarem ao restaurante, Sara conduziu Charlotte pelo estacionamento, fazendo comentrios que ela nem ouvia, os pensamentos longe.
         O interior do restaurante era mais luxuoso do que Charlotte imaginara, muito mais do que uma simples tratoria.
         Em primeiro lugar, elas foram ao bar, onde o garom lhes entregou o menu para que escolhessem seus pratos.
         A maioria dos frequentadores era casais e uns poucos executivos, e Charlotte, com uma rpida olhada, concluiu que no conhecia ningum.
         Depois que sentaram-se  mesa, Charlotte comentou:
         - Este restaurante no  bem o que eu tinha imaginado.
         -  Tony me trouxe aqui no nosso aniversrio de casamento. Achei que voc iria gostar, afinal, sempre adorou comida italiana.
         Estavam saboreando a entrada, quando Sara inclinou-se para a frente e disse, cochichando:
         - No se vire agora, Charlotte, mas acho que foi seu patro quem acabou de entrar.
         -  Meu patro? - Charlotte quase deixou cair o garfo. - Voc se refere a Daniel Jefferson?
         - O prprio. Pelo menos, parece-se muito com ele. Hum... est acompanhado. Uma mulher muito alta... tipo sofisticada, nada simptica. Sentaram-se em um
espao meio reservado. Acho que voc pode olhar agora.
         Charlotte disse a si mesma que no se viraria para olhar, que no tinha o menor interesse em saber se era Daniel ou no, mas no mesmo instante virou a cabea
e deu com o olhar dele fixo sobre ela.
         Num gesto rpido e brusco, ela voltou-se e meio atordoada ouviu Sara dizer:
         - Acho que ele deve ter te reconhecido. Parece que est vindo para c.
         Sem saber por que estava to nervosa, Charlote conseguiu controlar-se e no olhar para trs. No sabia a razo de tanto nervosismo. Porm, mesmo de costas,
pressentiu a chegada de Daniel, pelo arrepio que a percorreu dos ps  cabea.
         - Charlotte, achei que era voc. Estou contente por ver que no me enganei - ele disse, com seu modo calmo e terno de falar.
         Com um sorriso educado, Charlotte apresentou-o a Sara.
         Para seu embarao e frustrao, Sara mostrou abertamente sua admirao, dizendo o quanto apreciara v-lo na televiso.
         - Convidaria vocs com muito prazer para juntar-se  nossa mesa - ele disse. - Porm, Patrcia quer discutir alguns assuntos relacionados a negcios.
         - Hum... - Charlotte deixou escapar um som que, juntamente com olhar lhe lanou, dizia o quanto desacreditava daquela afirmao.
         Foi um olhar to irnico que Daniel franziu a testa, sem compreender, e por um momento pareceu querer dizer qualquer coisa, mas, depois, mudou de ideia.
         -  Tenham um bom jantar. Com licena - ele se despediu.
         - Uau! Isto  o que eu chamo de homem, com ag maisculo - Sara suspirou. - Como ele  sexy, at senti um arrepio. Mas, a companheira dela no  muito interessante.
Voc precisava ver os olhares que ela lanou. Pode acreditar, se olhar matasse, voc estaria morta agora. E sabe o que acho? Daniel pode pensar que est tratando
de negcios, mas ela certamente sabe que este no  seu objetivo. Notou o vestido dela? Um milmetro a mais e seus seios estariam de fora.
         Ao ver que Charlotte brincava com a comida, em vez de comer, Sara interrompeu-se:
         - Charlotte, o que est havendo? Alguma coisa errada?
         - No h nada errado - ela garantiu, mas ambas sabiam que no estava falando a verdade, e mentir para a irm fazia-a sentir-se muito culpada.
         Charlotte sabia que Sara a convidara para jantar para proporcionar-lhe uma noite diferente e inspirar-lhe mais nimo. E l estava ela, sisuda como uma criana
amuada.                                              ,
         - Sinto muito, Sara - Charlotte desculpou-se, forando um sorriso. - E que... bem, Daniel sabia que eu viria aqui hoje  noite, pois me ouviu combinar com
voc ao telefone. Por que ele tinha de vir logo a este restaurante com Patrcia Winters? Parece at que...
         -  Parece o qu? - Sara perguntou, acariciando uma das mos de Charlotte. - Voc que saber o que penso? Pois acho que voc est ficando apaixonada pelo
seu patro.
         - Que disparate! No seja ridcula, Sara. Eu mal o conheo - Charlotte protestou.
         -  E desde quando amor tem alguma coisa a ver com tempo? Apaixonei-me por Tony nos primeiros cinco minutos de nosso conhecimento. Quando ele deu r no carro
e bateu no meu, fiquei furiosa, mas quando ele se dirigiu a mim para se desculpar, eu soube que tinha encontrado o homem da minha vida.
         - Mas isto foi diferente. Tony tambm se apaixonou por voc na mesma hora - Charlotte ponderou, com ar de desesperana.
         - Ah! Ento voc est praticamente admitindo que est apaixonada... - Sara concluiu com um sorriso vitorioso. Mas, ao ver a expresso de Charlotte, desculpou-se:
- Perdo, querida. No quero te trazer mais incmodos, e parece que este assunto te incomoda, no  mesmo?
         - Eu j nem sei mais o que sinto. S sei que todos os dias desejo que no o tivesse encontrado. Sara, ele no confia em mim, no meu trabalho. Ele me considera
incompetente, e o pior  que tem razo. Eu...
         - No me pareceu de forma alguma que ele tenha tal conceito sobre voc, quando veio at aqui nos cumprimentar - Sara interrompeu.
         - Ele se dirigiu mais a voc do que a mim.
         - Mas o tempo todo olhava somente para voc.
         - Ah! Por favor, no quero ficar ainda mais confusa. E no quero mais falar sobre isto. Por favor, vamos mudar de assunto.
         -  Se isto  o que voc quer... sobre o que quer falar? Papai espera vencer a competio de flores este ano...
         - Est bem, est bem... No precisa me provocar. Mas, compreenda, no tem sentido falarmos sobre Daniel. - Ela sorriu com carinho para a irm. - Sei que
tem as melhores intenes, mas falar sobre ele no me far nenhum bem. O melhor que devo fazer  parar de pensar em Daniel.
         Durante todo o jantar, elas conversaram sobre outros variados assuntos. Contudo, o apetite de Charlotte se fora.
         Desde o momento que vira Daniel com Patrcia, tudo que desejava era desaparecer, porm seu amor-prprio manteve-a no lugar. Por nada deixaria que ele percebesse
o efeito que tinha sobre ela.
         Foi com grande alvio, que Charlotte viu Sara terminar o jantar e anunciar que talvez j fosse hora de irem embora.
         Do lado de fora, a temperatura cara, tornando o ar um pouco frio, e Charlotte ficou contente por no precisarem andar muito para alcanarem o carro.
         Porm, o carro se recusou a pegar e, por mais que insistissem, o motor no reagia.
         - O que h de errado? - Sara perguntou.
         -  No sei, mas estou morta de medo que tenha acabado a gasolina. Oh! No. E aqui .perto no deve haver nenhum posto. Escute, fique aqui. Eu vou e...
         Sara interrompeu-a:
         - No, voc no vai fazer nada. Uma mulher caminhando sozinha neste local? E melhor telefonarmos para a casa de papai.
         - Seria incomod-los demais e, alm disso, levariam muito tempo para chegar aqui - Charlotte discordou e desceu do carro, seguida por Sara.
         Mal tinha dado alguns passos, sentiu-se gelar.
         Duas pessoas deixavam o restaurante e dirigiam-se ao estacionamento. Ela as reconheceu imediatamente. Patrcia Winters caminhava quase colada a Daniel e
segurava-lhe o brao com intimidade, enquanto falava.
         No primeiro momento, Charlotte pensou que ele no a tivesse visto, mas de repente ele parou e, desembaraando-se do brao de Patrcia, veio ao encontro
delas.
         - Est tudo bem? - ele perguntou, evidentemente percebendo que havia algo errado.
         A reao instintiva de Charlotte foi negar, mas Sara foi mais rpida e respondeu:
         - Ficamos sem gasolina. Incrvel, no?
         - Mas est tudo bem. Eu ia at o posto mais prximo para conseguir um pouco - Charlotte acrescentou com rapidez.
         Daniel franziu o cenho e encarou-a.
         - No. Voc no pode fazer isto - ele disse com firmeza. - Alm de ser longe,  muito perigoso. Posso dar uma carona a vocs.  o mais sensato.
         Charlotte comeou a dizer que no era necessrio, mas Sara precipitou-se, sem cerimnia:
         -  muita bondade sua, Daniel. Muito obrigada.
         Com Daniel aguardando e Sara decidida a aceitar a oferta, Charlotte no teve outra opo a no ser segui-los.
         Naquela noite, Daniel no estava com o carro antigo que pertencera  tia dele, mas com uma pequena Mercedes Benz.
         Patrcia estava ao lado do carro e pelo olhar dela era fcil perceber que estava furiosa.
         - Como algum pode ser to idiota, a ponto de ficar sem gasolina? - Patrcia perguntou baixinho a Daniel, quando ele lhe contou o que acontecera, mas Charlotte
ouviu a indagao.
         - Acontece. J aconteceu comigo mesmo. Olhe, vamos entrar no carro porque est esfriando aqui fora - ele pediu, abrindo a porta.
         Daniel estava muito prximo de Charlotte e, de repente, aquela proximidade transmitiu-lhe um calor e uma segurana como h tempo no sentia. Parecia-lhe
ter encontrado um porto seguro no meio da tempestade.
         Ele perguntou a Sara onde elas iriam ficar e, depois de obter a resposta, dirigiu-se a Patrcia.
         - Deixarei voc em casa primeiro, Patrcia, j que voc mora mais perto.
         No interior escuro do carro, Sara deu um aperto encorajador na mo de Charlotte e, mesmo na escurido, via-se que Patrcia no ficara nem um pouco satisfeita
com a sugesto de Daniel.
         Como Charlotte havia imaginado, a casa dela era um enorme palacete com a fachada iluminada por luzes indiretas.
         - Espero que, pelo menos, voc me leve at a porta - Patrcia disse a Daniel, num tom cido, quando ele parou o carro.
         - Claro que sim - ele respondeu com cordialidade e, enquanto Charlotte e Sara aguardavam, os dois conversaram do lado de fora, at que Patrcia desapareceu
no interior da casa.
         Para Charlotte, parecia que a viagem no acabaria nunca e que a casa de seus pais jamais chegaria. Quando finalmente a Mercedes parou diante da casa, ela
percebeu que o tempo todo estivera contraindo os msculos de tal forma que se sentia dolorida.
         Coube a Sara agradecer com entusiasmo a carona de Daniel, porque Charlotte no tinha coragem de encar-lo. Depois de encontr-la sem gasolina, devia ach-la
ainda mais idiota do que de costume.
         Charlotte estremeceu e Daniel notou.
         - Voc est com frio. Devia ter um casaco. Olhe, no se preocupe em chegar ao escritrio no horrio, amanh. Vocs precisam tomar uma providncia sobre
o carro.
         - Voc nem agradeceu Daniel - Sara reprovou a irm depois que entraram em casa. - E ele foi muito atencioso e generoso.
         Charlotte sorriu um pouco embaraada, pois tambm concordava que no fora nada gentil.
         - E que histria  esta de que ele no confia em voc? Ou de que no gosta de voc? Pois o tempo todo ele me pareceu muito preocupado com voc. Preocupado
demais at. Voc deve ter notado como a companheira dele ficou irritada com as atenes que ele lhe dispensou.
         -  No  nada especial para mim, Sara. Veja se voc compreende isto.  que ele  este tipo de homem, mesmo...
         Sara ergueu as sobrancelhas, pouco convencida com a explicao.
         - E mesmo? Pois quando voc tremeu, pensei que ele fosse tirar o palet para pr sobre seus ombros.
         Charlotte corou, embora no tivesse reparado naquele gesto.
         - No seja boba, Sara. Voc sempre foi imaginativa demais.
         - Voc acha? Pois eu acho que voc est afundada to profundamente no seu mar de autopiedade que no quer ver a verdade.
         -  Est bem, ele  delicado - Charlotte replicou, zangada. - Mas, e da? J lhe disse, ele  este tipo de homem delicado, educado.
         -  Bem, se voc pensa assim... - Sara parou de insistir, mas via-se que no estava convencida.
         Depois de alguns minutos de silncio, ela murmurou, quase como se falasse para si mesma:
         - Pena que eu estava com voc. Se voc estivesse sozinha, acho que a noite teria terminado de modo diferente e ento...
         - Sara, por favor. No...
         A angstia na voz de Charlotte fez Sara parar e encar-la gravemente.
         -  Desculpe, no quis... Voc est apaixonada por Daniel, no  verdade?
         - No, claro que no - Charlotte negou com veemncia, mas as palavras soaram falsas at aos seus prprios ouvidos.
         Muito tempo depois, insone na cama, Charlotte tentava lidar com suas emoes.
         Como fora se apaixonar por Daniel?
         Fora idiota e ao mesmo tempo to... inevitvel.
         Ela tentou sufocar um gemido. No, no podia estar apaixonada por ele. No devia am-lo.
         Enquanto jazia quieta, olhando o teto, com os olhos secos das lgrimas qua se recusava a derramar, teve de aceitar para si mesma que o amava.


        CAPTULO VI

         Charlotte estava convencida de que Daniel no confiava em seu julgamento, mas, apesar disso,  medida que os dias passavam, ela cada vez mais se questionava
se no teria se precipitado, deixando que sua falta de segurana aps o fracasso do escritrio a levasse a interpretar tudo de forma negativa.
         Na verdade, precisava admitir que Daniel frequentemente procurava saber a opinio dela sobre vrios assuntos. Inclua-a nas entrevistas com os clientes,
tanto no escritrio, quanto fora. Em certa ocasio, ele havia mesmo elogiado o trabalho que ela fizera em um dos casos mais difceis.
         Aos poucos, tornou-se uma familiar rotina para Charlotte a presena de Daniel junto  sua mesa, debruando-se para acompanhar o que ela fazia. A princpio,
ela o condenara por considerar aquela atitude uma fiscalizao desconfiada, mas agora tendia a acreditar que ele realmente apreciava v-la lidar com os processos.
         Uma tarde em que Charlotte estivera descrevendo com entusiasmo um precedente jurdico que poderia ajud-los em uma das causas, Daniel estendera a mo e
colocara uma mecha de seus cabelos vermelhos atrs da orelha dela, dizendo com voz muito, muito suave:
         - Voc fala sobre seu trabalho com tanta paixo... Gostaria que...
         O que quer que Daniel fosse dizer, Charlotte no ficou sabendo, porque naquele exato momento Anne entrara apressada na sala para avisar que uma cliente
se encontrava na recepo. Ele sara para atender a pessoa e pelo resto daquele dia Charlotte no o viu mais.
         - Voc est parecendo mais animada - Sara comentou no final de semana.
         Ela viera com as crianas, que brincavam no jardim, visitar os pais.
         -  Ser que esta nova disposio de esprito ter alguma coisa a ver com um certo advogado muito sexy que ns duas conhecemos? - Sara gracejou.
         Charlotte riu, mas recusou-se a falar a respeito.
         Seus sentimentos ainda eram muito novos e delicados para serem discutidos com quer que fosse, e alm disso, Daniel jamais dissera qualquer palavra que denunciasse
que ele nutria por ela o mesmo carinho que lhe dedicava. Mas Charlotte lembrava-se de como, em certas ocasies, ele lhe sorria de um modo especial. Muitas vezes
percebia seu olhar fixo nela. Porm, o gesto que mais lhe marcou fora quando ele afastara o cabelo de seu rosto carinhosamente.
         Aquele leve toque de Daniel deixara Charlotte mais emocionada e mesmo mais excitada do que os mais apaixonados beijos de Bevan. Ela remexeu-se na cadeira,
pouco  vontade com a direo que seus pensamentos tomavam; porm, era intil tentar negar que ela passava cada vez mais tempo sonhando acordada com o momento em
que Daniel a beijasse.
         A princpio Charlotte ficou chocada com a prpria reao e por descobrir que seu corpo desejava Daniel como jamais desejara nenhum homem.
         Fora um simples roar de dedos sobre sua pele, mas acendera uma fogueira que s Daniel poderia apagar. Ela tinha conscincia de quanto a presena daquele
homem  perturbava e sabia que se ele tentasse qualquer avano fsico, ela jamais resistiria. Mas era muito difcil: quantas vezes tivera vontade de recostar a cabea
cansada naquele ombro forte e acolhedor.
         Charlotte corou ao pensar em como seus sentimentos deviam ser transparentes para Daniel, mas no estava em suas mos comportar-se diferentemente.
         Foi um final de semana feliz, Charlotte sentindo-se mais relaxada e mais despreocupada como h muito tempo no se sentia.
         Sua me, vendo-a brincar com as crianas de Sara, falou:
         -  H quanto tempo no ouvia voc rir e brincar assim.  uma bno para ns todos que voc volte  sua antiga forma.
         - Lamento, mame - desculpou-se. - Sei que nestes ltimos tempos no tenho sido nada agradvel.
         - No se incomode, minha filha. Sei que tinha bastante motivos para estar infeliz.
         Na manh de segunda-feira, quando Charlotte dirigia-se para o trabalho, sentia-se no somente satisfeita, mas ansiosa para chegar ao escritrio. E no era
somente porque j pisava em terra firme nas suas tarefas, mas porque era um prazer executar seu trabalho.
         At mesmo suas roupas, que no comeo haviam sido motivo para tortur-la, no a incomodavam mais.
         Quando, ao atravessar a pracinha em frente ao prdio, um trabalhador assobiou, ela sorriu para si mesma.
         - Meu Deus, voc est resplandecente hoje - Anne falou.
         -  Tive um fim de semana tranquilo. E voc? - respondeu Charlotte, sorrindo.
         Anne gemeu, passando a mo de leve sobre a barriga avantajada.
         - No. O Jnior aqui dentro me chutou o tempo todo.
         Charlotte sorriu com simpatia. A gravidez avanada de Anne j devia estar difcil de levar.
         - Tomara que este bom humor seja contagioso - Anne continuou. - Encontrei Daniel h poucos minutos e ele tambm est envolto por uma aura mais radiante
que de costume. Vocs colocaram alguma coisa especial no caf?
         Com um sorriso, Charlotte sacudiu os cabelos vermelhos que lhe caram sobre o rosto, escondendo o sbito rubor.
         Daniel teve uma manh muito ocupada, cheia de entrevistas para as quais Charlotte no foi chamada. Por volta do meio-dia, ele abriu a porta de comunicao
entre eles e avisou que surgira um caso inesperado e que iria ao tribunal, ficando l o resto do dia.
         Charlotte estava lendo um processo, quando ele veio lhe falar, e a forma como a olhou a fez corar at a raiz dos cabelos. Sempre que isto acontecia, ela
experimentava aquela estranha sensao na boca do estmago e aquele misto de alegria e ansiedade.
         - Eu tinha esperana de podermos almoar juntos. H uns casos que gostaria de discutir - Daniel disse. - Alguns julgamentos j esto com data marcada e
preciso conversar com voc. Mas parece que nunca h tempo. Infelizmente, tenho este compromisso agora.
         Charlotte anuiu com a cabea, sem confiar na prpria voz. Por que ele permanecia ali, parado, sem dizer nada? O que ele olhava?
         - Voc est feliz aqui agora, no est Charlotte? - Daniel perguntou, surpreendendo-a.
         Mas, outra vez, ela apenas moveu a cabea.
         - Otimo! Porque no gostaria de perder voc.
         Charlotte ergueu o olhar para ele, sentindo-se sem defesa e vulnervel.
         -  valiosa demais para a nossa firma - ele acrescentou.
         Aquela declarao ia muito alm das suas expectativas e ela no soube como agradecer o elogio.
         Muito depois de Daniel sair, Charlotte permanecia sentada, olhando fixamente para a parede enquanto as palavras dele ecoavam em sua mente como uma maravilhosa
melodia.
         Ele no queria perd-la. Ela era valiosa para a firma. A euforia no lhe cabia no peito. De repente, tudo pareceu-lhe possvel, todos os problemas solucionveis,
todas as metas alcanveis. Pelo resto da tarde, Charlotte sonhou acordada e s quando j passava das quatro horas  que no produzira nada.
         "Sou valiosa para a firma, ento tenho que trabalhar e no ficar feito uma adolescente sonhando com o primeiro namorado."
         Depois dos devaneios, ela mergulhou de tal forma na leitura que nem percebeu que os outros funcionrios j estavam saindo.
         As sete horas, seus dedos estavam dormentes de tanto tomar notas e ela resolveu preparar um caf. Talvez em meia hora acabasse o processo que estava estudando.
Era um caso complexo que exigia muita pesquisa.
         Sorvendo o caf quente, Charlotte voltou a sentar-se diante da mesa. Fechando os olhos, imaginou pela milsima vez Daniel em p perto dela.
         -  Charlotte, est trabalhando at to tarde?
         Ela abriu os olhos, sobressaltada ao ouvir a voz de Daniel. Ele caminhou pela sala, colocando a pasta no cho e jogando o palet sobre uma cadeira.
         Enquanto afrouxava a gravata, disse:
         - O caso Ipsan foi adiado. O tribunal resolveu julgar um outro. Foi decepcionante, depois de uma tarde de espera... Em que voc est trabalhando?
         Ele parou diante dela, da forma como havia imaginado. Todo seu corpo ficou alerta com a proximidade e um calor delicioso a tomou por completo.
         Ao ver a pasta que ela estivera lendo, Daniel, fez uma careta.
         -  No h dvida de que neste caso houve uma grande negligncia da parte do empregador, mas no consigo ver como vamos provar. Quando o cliente se machucou
no havia testemunhas e ele costuma arriscar-se.
         -  Hum, acho que sei. Nosso cliente alega que a maneira como ele trabalhava era aceita pela firma como natural.
         - Mas no podemos provar.
         - Ele mencionou que aquela prtica estava em uso h muitos anos e o homem que trabalhava no seu lugar anteriormente avisara-o sobre isto.
         - Porm, este homem morreu, lembra? No podemos contar com seu testemunho.
         -  Veja, se a firma ainda tem os dados do antigo trabalhador, ser fcil verificar se ele sofreu ferimentos no trabalho.
         - So muitos "ses". Mas voc tem razo, talvez valha a pena investigar.
         - Tambm acho - Charlotte afirmou, excitada. - Se conseguirmos provar...
         De repente, algo nos olhos dele a fez calar-se. Ele olhava-a com tal intensidade que tornava seus olhos escuros ainda mais brilhantes. Sob aquele olhar
ardente, Charlotte esqueceu tudo o que ia dizer sobre o caso Ipsan.
         -  Charlotte... - ele murmurou to baixinho que ela mais adivinhou que ouviu.
         Seu tom de voz tocou-a profundamente, num gesto inconsciente, ela umedeceu os lbios com a ponta da lngua, perturbada pela sensao que a invadia ao ouvir
a voz insinuante e ao sentir o contato da mo forte sobre a sua. Olhava para Daniel, embevecida com o calor de seus dedos, imaginando como seria se ele a beijasse,
se a tocasse...
         O rosto de Daniel aproximava-se cada vez mais do seu, sua respirao quente acariciava-lhe as faces. Quando ela sentiu os lbios sensuais envolverem os
seus num toque suave, como o roar de uma pluma, pensou em resistir, mas tudo o que conseguiu foi entreabrir a boca para outro beijo, desta vez mais vido, sufocado
pelo desejo, to contido nos ltimos dias.
         Depois de toda a ansiedade e tenso que Charlotte sofrera a partir do momento em que descobrira que o amava, era incrvel como se sentia plena e realizada
com o beijo dele.
         Daniel interrompeu a carcia e murmurou-lhe no ouvido:
         - Pensei em voc a tarde inteira. Voc no me saa da cabea. Mal pude trabalhar.
         Ele segurou uma mecha dos cabelos de Charlotte, aspirando-lhe o perfume com sensualidade.
         -  Sabe que seu cabelo parece seda pura?
         Os olhos verdes de Charlotte contemplaram-no com confiana, deixando  mostra toda a emoo que sentia. Quando os lbios de Daniel deslizaram sobre seu
rosto e brincaram com o lbulo de sua orelha, ela fechou os olhos, deliciada. Seu corao galopava e seu desejo por ele crescia.
         - Abrace-me - ele suplicou. - Ponha seus braos em volta do meu pescoo e aperte-me forte.
         Ela obedeceu, sem hesitar, soltando um pequeno gemido de prazer quando seus corpos se tocaram. Ah! Como gostaria de ficar assim para sempre. Aconchegada
nos braos quentes de Daniel, ouvindo-lhe as batidas aceleradas do corao, sentindo-lhe a respirao ofegante, gozando daquele momento nico.
         Daniel beijou-a novamente, num contato ardente e apaixonado. Charlotte acariciava-lhe as costas firmes e parecia que o mundo havia parado de girar. O beijo
tornou-se mais profundo, como uma promessa, um preldio de um prazer mais intenso. Estavam prximos de ultrapassarem o limite a partir do qual o controle da situao
estaria perdido. Mas nada importava, a no ser os braos que a prendiam e o doce sabor daqueles beijos.
         Daniel explorava-lhe a boca, mais e mais, e logo um fogo explodia entre eles. Charlotte introduziu as mos sob a camisa dele deslizando suavemente pelo
peito e seguindo pelas costas, fazendo-o estremecer com suas carcias.
         Ento, os lbios separaram-se e os olhos se uniram com emoo. Charlotte leu a urgncia no olhar dele e compreendeu que ele perguntava silenciosamente se
ela tambm compartilhava daquele desejo.
         Ainda abraando-a, ele puxou-lhe a leve blusa de seda para fora da saia, alcanando-lhe os seios, e depois deslizou as mos at a curva de sua cintura.
         Charlotte prendeu a respirao e deixou-se levar pelo calor e pela sensao de desejo que subia-lhe pelas pernas, invadindo-lhe o corpo por inteiro. Com
as plpebras pesadas, continuava fitando o rosto de Daniel, sem saber ainda que resposta dar  pergunta silenciosa. Iria entregar-se  paixo?
         Sim, seu amor era legtimo e verdadeiro. Se no se entregasse quele homem, que outro homem no mundo teria o poder de emocion-la e excit-la daquela maneira?
         As carcias se multiplicavam e ambos arfavam de excitao. Porm, quando os lbios quentes de Daniel voltaram a pousar sobre a sua boca, a buzina intempestiva
de um carro na rua os sobressaltou.
         Aquele som desfez o encantamento e, imediatamente, Charlotte abriu os olhos e encontrou os dele. Ficaram calados por um momento e ele afrouxou um pouco.
         - Aqui no  mesmo nem a hora, nem o lugar - ele disse com voz rouca, modificada pela emoo.
         Seus corpos ainda se tocavam e ela podia sentir contra si a prova de quanto o excitara. Saber que tinha aquele poder sobre o homem amado deixou Charlotte
eufrica.
         No entanto, com muita delicadeza, Daniel comeou a afastar-se dela, tocando-lhe o rosto entre as mos, ele beijou um lado do rosto, depois o outro.
         -  Se continuar a beijar voc, acho que no vou poder parar mais - ele disse, com a voz j mais controlada. - Ainda tenho de ir a uma reunio, hoje  noite.
 muito importante. Por favor, Charlotte, jante comigo amanh.
         Charlotte anuiu com a cabea, no confiando na prpria voz.
         Entre dois rpidos beijos, ele disse:
         - No ouso continuar com voc aqui.
         - Eu j ia sair, quando voc chegou - ela respondeu, com voz trmula.
         Charlotte no ousava olh-lo, tinha medo de no resistir e implorar-lhe para continuar as carcias e terminar o que tinha comeado. A intensidade de seu
desejo chegava a assust-la, nunca experimentara nada parecido, jamais conhecera tanta urgncia.
         - Venha. Vou lev-la at seu carro - Daniel falou. Eles caminharam lado a lado, porm mantendo uma distncia cautelosa, como se ambos receassem sucumbir
a atrao que os lanara um nos braos do outro. Enquanto dirigia para casa, Charlotte tentava analisar a situao logicamente, mas era impossvel. Na noite seguinte
jantaria com Daniel. Ela estremeceu ao pensar no que aquilo significava, ao se lembrar das mos dele em sua pele, os lbios msculos em sua boca. Se um beijo tivera
um efeito to devastador sobre ela, o que aconteceria quando fizessem amor?
         -  No virei jantar hoje - Charlotte avisou sua me,  mesa do caf da manh, de modo bem casual. - Vou jantar com... Daniel.
         Ela tentou dizer o nome dele de modo natural, quase num tom indiferente, como se jantar com ele no tivesse muita importncia. Mas no conseguiu enganar
a sra. French, porque sua voz tremeu e seu rosto corou como uma garotinha surpreendida numa traquinagem.
         A sra. French, com muito tato, no fez nenhum comentrio. Apenas perguntou se ela passaria em casa primeiro, para trocar de roupa.
         Charlotte gostaria de vir at em casa, mas no tinha certeza se seria possvel. Uma boa ducha seria timo, antes do jantar. Talvez colocasse aquele vestido
pre-tinho...
         Um arrepio a percorreu ao notar o rumo de seus pensamentos. Quando fora a ltima vez que se preparara para um encontro? Quando, na vida, preparara-se para
em encontro, sabendo que faria amor com um homem?
         Nos seus tempos de faculdade, havia um rapaz por quem julgara estar apaixonada e eles haviam se transformado em amantes, mas nunca sentira a emoo que
experimentara com Daniel.
         Charlotte no se reconhecia. Jamais imaginara que fosse to sensual. Daniel despertara aquele lado oculto de sua personalidade, e a todo instante imagens
erticas formavam-se em sua mente.
         Na noite anterior, ela quase no dormira porque a excitao do que aconteceria mantinha-a desperta. Estava loucamente apaixonada e, embora no comeo no
tivesse a mnima esperana de ser correspondida, agora essa esperana brotava dentro de seu peito com fora.
         Com Bevan, tivera um relacionamento muito racional e jamais haviam feito amor. Ele queria casar primeiro, viajar em lua-de-mel para um lugar da moda. Nada
que causasse transtornos  agenda.
         Charlotte no tivera pressa em tornarem-se amantes. Pensou que estivesse apaixonada por Bevan, fizera tudo que ele pedira, porm seus beijos no moviam
um fio de seus cabelos. De certa forma, bendizia o fim de seu romance com Bevan, porque teria sido um tremendo erro casar-se sem se sentir fisicamente atrada pelo
marido.
         Era uma alegria saber que se sentia mental, fsica e emocionalmente ligada a Daniel. E ele devia sentir alguma coisa por ela. Caso contrrio, no teria
dito tantas coisas maravilhosas, nem a teria tocado da forma que tocara.
         O corao de Charlotte cantava ao se dirigir ao trabalho, e mesmo sabendo que Daniel estaria no tribunal a maior parte do dia, seu pulso bateu mais rpido
quando entrou no escritrio.
         Aquela noite estaria com Daniel. Aquela noite... Mas ainda faltavam tantas horas...
         Ao entrar na sua sala, Charlotte viu a porta de comunicao fechada e, num impulso, abriu-a e entrou no escritrio de Daniel.
         A escrivaninha dele estava arrumada e vazia. Ela acariciou de leve os objetos e tocou o encosto da cadeira onde Daniel pousava a cabea. Fechando os olhos
tentou imaginar e sentir seu perfume de sabonete. Deixando-se levar pela fantasia, seus lbios se abriram num sorriso. Um arrepio a percorreu.
         Naquele momento, ela escutou a porta da frente abrir-se e ouviu vozes. Antecipando a entrada de Daniel, ela voltou-se, radiante, os olhos brilhantes, mas
em vez de Daniel ela deu com Patrcia Winters de p  sua frente.
         - Oh! - Patrcia exclamou com desagrado. - Onde est Daniel?
         Charlotte sentiu o sangue esquentar-lhe as faces, com os modos bruscos e autoritrios de Patrcia, mas dizendo a si mesma que afinal aquela mulher era uma
importante cliente do escritrio, respondeu da maneira mais delicada que pde.
         -  Daniel se encontra no tribunal, hoje. Em que posso ajud-la?
         O olhar que Patrcia lhe lanou parecia um dardo envenenado.
         - Voc no estaria em condies de me ajudar - ela respondeu com frieza.
         Virando-se, sem se despedir ou agradecer, ela saiu da sala, deixando atrs de si um rastro forte de perfume. Irritada, Charlotte abriu a janela para ver-se
livre do forte cheiro que a perturbava.
         Ser que Daniel e Patrcia tinham sido amantes? Ou seria somente ela, como dissera Anne, que se insinuava para Daniel, procurando confundir trabalho com
assuntos pessoais?
         Mordendo o lbio, Charlotte voltou  sua sala. Tudo que sabia e descobrira sobre Daniel lhe garantia que ele no era o tipo de homem que se deixaria levar
contra a vontade e que no faria nada que no fosse sincero. Ao contrrio do que ela imaginara no incio, ele no era um caador indiscriminado de publicidade, mas
possua uma integridade rara que precisou reconhecer, muito antes de se apaixonar por esse homem.
         Os ressentimentos que um dia nutrira contra Daniel haviam desaparecido de seu corao. Em parte porque o amava e em parte porque acreditava que ele valorizava
seu trabalho de verdade. Considerava-a uma colega.
         E naqueles instantes febris em seus braos, ele tambm lhe dissera que a queria como mulher. Inspirando profundamente, observou, pela janela, Patrcia atravessar
a rua. Do outro lado da calada ela encontrou-se cm um homem e comearam a conversar. Charlotte nunca o vira no escritrio. Era alto, de meia-idade, com cabelos
grisalhos. Pelas maneiras afetadas, seus sorrisos sedutores, podia-se pensar que entre os dois havia alguma coisa...
         Ela voltou a ateno para sua escrivaninha. A ltima coisa de que tinha vontade naquele momento era trabalhar.
         "Comece a ler este processo agora mesmo. Voc no  paga para sonhar acordada com Daniel Jefferson", disse a si mesma.
         Se fechasse os olhos, recapturava todo o clima amoroso da vspera, por isto era to difcil mant-los abertos.
         Quando o telefone tocou, ela deu um salto, culpada.
         - Charlotte?
         A voz de Daniel teve efeito de um choque, e ela respondeu com um sussurro:
         - Escute, no tenho muito tempo, mas queria checar com voc que est tudo certo para hoje  noite. Acho que no vou poder voltar ao escritrio, por isto
queria saber se poderia peg-la s oito horas. Reservei uma mesa num local recm-inaugurado. Que me diz?
         - s oito? Est bem - Charlotte respondeu, com o corao disparado, sem lembrar nada mais interessante para dizer.
         Por sorte, ela trabalhou com afinco o resto do dia e quando soaram as cinco horas, preparou-se para sair. Porm, Richard veio at sua sala e comeou a conversar,
fazendo-lhe perguntas sobre o trabalho, sobre sua1 adaptao. Eram atenes que Charlotte apreciaria muito em outra ocasio, mas no naquele momento em que morria
de pressa.
         Enfim, Richard se despediu e Charlotte correu para o carro.
         Interessante como, se fosse h algum tempo, as perguntas de Richard a teriam deixado tremendamente melindrada, interpretando tudo como um sinal de desconfiana.
Para ser honesta, ainda sentia uma pontinha de inveja da habilidade de Daniel em ser to bem-sucedido. Mas... melhor era deixar tudo aquilo no passado. Afinal, j
passara...
         Aps a ducha forte, Charlotte passou creme hidratante pelo corpo todo e sua pele estava brilhante e macia. Foi com um pouco de constrangimento que se olhou
no espelho com as minsculas roupas de baixo que comprara num impulso. No eram fantasiosamente provocante, mas eram um pouco transparente e colavam-lhe no corpo
como uma segunda pele.
         Da mesma forma, o vestido preto justinho era sexy de modo discreto e, alm do mais, tornava-a elegante.
         Charlotte ainda estava no andar de cima, quando escutou o carro de Daniel estacionar. Com mais uma rpida olhada no espelho, inspecionou sua imagem outra
vez. Ser que Daniel perceberia a excitao que tornava sua pele to brilhante e suas pupilas mais dilatadas que o normal? Ela examinou os lbios. Teria batom demais?
Ele saberia que fizera de propsito, s para provoc-lo?
         A campainha da porta soou e a me de Charlotte foi atender, ao mesmo tempo que Charlotte descia. Precisaria apresentar Daniel aos seus pais, pensou.
         Daniel estava dirigindo um Jaguar e quando ele abriu a porta do passageiro o corao de Charlotte comeou a bater mais forte e uma felicidade enorme parecia
sufoc-la.
         -  Ainda no experimentei este novo lugar aonde estamos indo - ele disse, enquanto dirigia -, mas ouvi boas referncias.
         -  E muito longe? - Charlotte perguntou.
         Ele explicou que o local era perto do rio e tratava-se de uma antiga fazenda abandonada que fora recuperada e transformada num restaurante.
         - Ns fomos advogados de uma das partes, porque haviam alguns problemas quanto ao fato de se usar uma velha fazenda como restaurante. Mas, no final, vencemos
a questo.
         Para alcanar o restaurante, o carro precisou pegar uma estrada de cascalho ladeada por eucaliptos que perfumavam o ar. Depois de andarem em declive por
algum tempo na estrada estreita, avistaram a fachada da velha fazenda. Era muito bonita, toda iluminada por luzes indiretas, e em sua construo de pedra havia inmeras
janelas cortinadas, o que no era comum em prdios modernos.
         Enquanto caminhavam para a estrada, Daniel segurou-lhe o brao e, instintivamente, Charlotte aproximou-se mais. Era como se seu corpo procurasse pelo conforto
do dele, sem que seu raciocnio influenciasse. As passadas diminuram e ambos caminhavam bem devagar, como se quisessem prolongar aquele momento solitrio.
         Ao alcanarem o restaurante, Charlotte reconheceu que o que mais desejava era ficar com Daniel e que se ele se voltasse para ela e dissesse "Vamos esquecer
este jantar", ela teria aplaudido a deciso.
         Quando Daniel abriu a porta, Charlotte piscou, meio atordoada pelas luzes e o zumzum de vozes que os atingiu.
         A decorao era rstica, procurando lembrar o lugar original. Algum realmente se empenhara em manter o romantismo dos tempos antigos adaptado ao conforto
dos tempos modernos.
         O assoalho era coberto por pedras naturais de um leve tom rosado e, espalhados por ele, vrios tapetes do mais perfeito e bem-acabado artesanato. As luzes
que a princpio haviam incomodado os olhos de Charlotte no eram, de fato, exageradas. Muito ao contrrio, eram todas amortecidas por cpulas que combinavam com
os tapetes.
         - O que acha? - perguntou Daniel, dirigindo-se  rea do bar.
         -  Gosto muito - ela respondeu sorrindo, mas ao ver o modo como ele olhava para sua boca, ficou sria e logo lembranas de momentos apaixonados voltaram
a sua mente.
         Charlotte nunca conhecera algum com olhos iguais aos dele. Nas ltimas semanas, surpreendera-se fitando outros homens, comparando-os a Daniel e perguntando-se
o que ele tinha de to diferente. E chegara  concluso de que ele era nico porque o amava. E que jamais encontrara olhos castanhos do mesmo tom que os dele. Quando
ele a olhava daquela maneira, sentia-se acariciada.
         Quando muito mais tarde, Charlotte quis lembrar aquele instante, tudo estava confuso em sua mente. No sabia se haviam pedido drinques, sabia que jantara,
mas no conseguia lembrar a comida. A conversa que se estabeleceu entre eles versou sobre assuntos comuns, mas o tempo todo eles estavam conscientes de que era apenas
uma cortina de fumaa para mascarar a grande tenso e emoo que os dominava diante da expectativa do que os aguardava.
         Como ela nunca observara antes, que o menor e mais insignificante gesto de uma pessoa podia estar carregado de erotismo e sensualidade? Por que s notava
aquilo naquele instante? Bastava olhar a maneira como Daniel movia as mos, por exemplo. Tudo nele a atraa de tal forma, que Charlotte poderia passar o resto de
seus dias a admir-lo.
         A medida que o ouvia, tornava-se cada vez mais evidente a influncia que sua tia Ldia tivera em sua formao. Charlotte quase chegava a invejar a falecida
senhora, pelo amor que ele lhe dedicava.
         - Deve ser maravilhoso possuir esta autoconfiana - Charlotte comentou, quando Daniel lhe disse que sua tia estabelecera-se sozinha, porque nenhum escritrio
de advocacia a aceitara.
         - Acho que no foi apenas questo de autoconfiana, mas de opo. Tia Ldia sabia que se no se tornasse economicamente independente, teria de voltar a
viver com seus pais e aceitar o estilo de vida que eles tinham sonhado para ela. Quer dizer, nada do que ela queria.
         - Humm...  incrvel pensar em como deve ter sido difcil naqueles dias...
         -  verdade - ele concordou. - Tendemos a esquecer como os hbitos mudaram neste sculo, quan tas coisas aceitamos com a maior naturalidade, que eram tabu
um tempo atrs. - Interrompendo-se subitamente, ele exclamou: - Veja, o carrinho das sobremesas! Disseram-me que eles tm doces muito especiais aqui.
         Especial era ele, pensou Charlotte.
         Tudo o que desejava era ficar sozinha com Daniel e ser envolta pelos seus braos fortes. Podia sentir a temperatura de seu corpo subindo, deixando-a quase
febril.
         Charlotte fechou os olhos, tentando controlar os sentimentos, mas no mesmo instante imaginou ambos os corpos nus e entrelaados sobre uma larga cama.
         Que fantasia audaciosa! E ous-la bem em frente de Daniel... era demais.
         Com o rosto em fogo e fazendo esforos desesperados para livrar-se de seus pensamentos inconvenientes, quase gaguejando, ela murmurou:
         -  No vou querer sobremesa, obrigada. Somente caf.
         O que ele estaria pensando? Ser que a desejava com a mesma intensidade com que ela o queria? Ento, aquela ansiedade, aquela mistura torturante de prazer
e dor era o que a paixo causava s suas vtimas?
         Charlotte bebericou o caf, olhando para Daniel, que brincava com a argola do guardanapo. Observando-lhe os dedos longos e fortes, Charlotte no pde deixar
de lembr-los sobre seus seios.
         Erguendo os olhos, ela viu que Daniel a encarava com uma intensidade fora do comum.
         - No sei quanto a voc - ele falou baixinho -, mas para mim j est mais do que na hora de irmos embora.
         Charlotte descobriu que, embora aquele fosse o momento pelo qual esperara o dia inteiro, subitamente sentiu-se tmida e nervosa como uma adolescente.
         Ento, incapaz de falar, ela balanou a cabea, concordando, e quando ele se levantou, ela o seguiu.


        CAPTULO VII

         Daniel j dirigia a cerca de quinze minutos, quando Charlotte percebeu que ele a estava levando direto para casa.
         Os mais diversos sentimentos debatiam-se dentro dela. Desapontamento e um agudo senso de rejeio eram os mais evidentes. Seria possvel que ela interpretara
tudo errado? Ento, afinal de contas, ele no a queria? O convite para o jantar no passara de uma simples delicadeza?
         A velocidade do carro diminuiu quando eles atingiram uma encruzilhada.
         Charlotte virou-se para Daniel e viu que ele a olhava tambm.
         - Acho que voc j sabe o quanto eu gostaria que esta noite no acabasse... Quanto eu quero... voc - ele confessou, numa voz rouca, quase irreconhecvel.
         Charlotte prendeu a respirao, orgulhosa demais para perguntar-lhe por que, se a queria tanto, levava-a de volta para casa.
         Interpretando mal o silncio dela, Daniel prosseguiu.
         -  No se preocupe, Charlotte. No vou pression-la e estragar tudo, levando-a para cama muito rpido. Acho que  importante que nos conheamos melhor,
por mais que o meu lado puramente fsico tenha tanta pressa.
         Daniel apressando-a?
         Charlotte imaginou o que ele diria se soubesse o quanto o queria. Como tinha urgncia de seu amor. Mas jamais lhe confessaria tal coisa. Faltava-lhe a coragem,
no era muito autoconfiante.
         A estrada estava escura, quase no havia trnsito e os faris do carro iluminavam o campo em frente. O silncio entre eles pesava, incmodo. Charlotte no
ousava dizer nada. Sentia uma tenso eltrica pelo corpo todo e o desapontamento sufocava-a.
         Uma parte de Charlotte estava assombrada ao constatar como era grande seu desejo por ele e a outra parte sentia-se um pouco medrosa e ressentida por ver-se
to sufocada com aqueles sentimentos enquanto Daniel, apesar de dizer que a queria, permanecia aparentemente em perfeito controle da situao.
         E, de repente, sem nenhum aviso, Daniel freou bruscamente o carro e virando-se para ela, murmurou:
         - No adianta... no consigo...
         E, no minuto seguinte, eles estavam entrelaados, unidos por um beijo ardente e sufocante, como ela sonhara o dia inteiro.
         Contra o peito forte, Charlotte ouvia-lhe as batidas do corao e sentia-lhe a tenso dos msculos. Daniel traava-lhe com os dedos trmulos o contorno
de seu rosto, descendo at o pescoo e ombros. Ela estava maravilhada ao pensar que era a responsvel por todo aquele turbilho de emoes que ele deixava transparecer.
         Daniel puxou-a contra si, fazendo com que seu rosto se aninhasse no peito musculoso. O contato foi to delicioso, que por um instante Charlotte ficou inebriada,
saboreando a gostosa fragrncia masculina. Ele debruou-se com lbios famintos sobre sua boca e beijou-a com sofreguido.
         - Meu Deus, como eu a quero... te quero tanto - ele repetia entre beijos, apertando-a cada vez mais contra si.
         As mos dele deslizavam pelo corpo feminino, pelas curvas suaves da cintura e dos quadris, provocando sensaes intensas e incontrolveis. E Charlotte cedeu
ao desejo de tambm toc-lo. Desabotoando-lhe a camisa, introduziu as mos pela abertura, sentindo o calor da pele mscula queimar lhe os dedos.
         Charlotte gemeu de prazer quando Daniel tocou-lhe os seios, e as unhas de Charlotte arranharam-lhe a pele de leve. Ele poderia possu-la ali mesmo no carro,
sem que ela oferecesse a menor resistncia.
         Era a maior felicidade e triunfo faz-lo estremecer sob seu toque. Mas, de repente, Daniel afastou-se um pouco e segurou-a com menos paixo. Numa voz alterada
e arfante, sussurrou em seu ouvido:
         - Desculpe, Charlotte. Normalmente no me comporto desta forma.
         Ele tocou os lbios dela com um leve beijo.
         -  Mas, a culpa  sua, voc sabe - ele disse. - Toda vez que olho para voc...
         Ele olhava Charlotte e ela tremia de ansiedade.
         - Se ao menos eu no andasse to assoberbado de trabalho - ele continuou falando, sem deixar de abra-la. -  a queixa comum a todos, no ? Que no h
tempo...
         -  Algum problema com o Tribunal? - Charlotte indagou.
         Daniel sacudiu a cabea.
         - No.
         Ele olhou para o infinito e seu corpo se enrijeceu.
         - No - ele repetiu, de modo sombrio. - H uma coisa, um problema que no tenho certeza se serei capaz de resolver. Trata-se de uma promessa que fiz a um
velho amigo. Uma promessa que no posso ignorar mas... ao mesmo tempo...
         -  um problema? Ser que aliviaria falar comigo a respeito? - Charlotte aventurou-se a perguntar.
         No mesmo instante, ele pareceu recuar, tanto emocional como fisicamente, de forma que Charlotte sentiu-se como algum que cometera uma imprudncia, como
se tivesse pisado em terreno proibido.
         Ela o olhou de soslaio e viu que ele olhava em frente de modo fixo, com os lbios apertados numa linha reta. Com tristeza, Charlotte compreendeu que ele
a havia deixado de fora do que quer que fosse que o atormentava. Ele no confiava nela o suficiente para fazer confidncias.
         - Desculpe, Charlotte - ele falou com sinceridade. - Que inferno! No era nada disso que eu queria. No h nada, nada que quisesse mais neste momento do
que lev-la para a minha casa e fazer amor com voc.
         Charlotte j retomara seu lugar de modo correto no assento e tentava recompor suas roupas meio amarfanhadas e seus cabelos revoltos e, ao mesmo tempo, sufocar
o terrvel sentimento de frustrao e rejeio.
         Como aquilo acontecera? Como todo aquele momento de intimidade tinha sido destrudo to depressa e to facilmente? Com umas poucas palavras... tudo acabara.
         Ela j sentia o calor de lgrimas amargas avolumarem-se em seus olhos. Piscou vrias vezes para livrar-se delas, amaldioando-se por sua vulnerabilidade.
Bem, ela pensou com raiva, Daniel tinha um problema que no poderia ser discutido com ela. Isto no queria dizer...
         No, ela sabia o que queria dizer, sim. Ele a desejava fisicamente, era bvio, mas Charlotte queria mais do que uma simples atraco fsica. Ela o amava
por completo, corpo e alma, e era assim que queria ser amada. Queria que o homem amado confiasse nela, queria que ele curasse as feridas dos ltimos meses, amando-a,
acreditando e confiando nela.
         -   melhor lev-la para casa - Daniel disse. E sua voz soou cansada. - Tenho um encontro amanh no tribunal.
         -  Para discutir este seu problema misterioso? - ela perguntou, ressentida.
         - No, no  sobre isto - ele respondeu, num tom aptico.
         Charlotte teve um impulso de toc-lo e fingir que os ltimos cinco minutos no tinham acontecido, retomar o momento maravilhoso em que se acariciavam. Mas
Daniel ps o carro em movimento e toda a alegria e felicidade foram se perdendo na noite.
         Quando estacionou em frente  casa dos pais de Charlotte, Daniel hesitou um pouco e depois disse, com voz enrouquecida:
         - Perdo se estraguei a noite, mas...
         Abrindo a porta, Charlotte apenas falou:
         - Est tudo bem. Eu compreendo que algumas coisas devem permanecer confidenciais entre advogado e cliente.
         Charlotte sabia que precisava sair do carro o mais rpido possvel, antes que fizesse papel de boba e se trasse, mostrando-lhe o quanto estava magoada
por ele deixar to claro que no confiava nela.
         Com a cabea virada para o outro lado, ela acrescentou com frieza:
         - Afinal de contas, com um curriculum como o meu tenho muita sorte de ter este emprego, no  mesmo? No se preocupe...
         Ela se interrompeu e arquejou sem querer, com a maneira como ele a puxou para si e a olhou de modo to intenso que fez seu corao disparar novamente.
         - No  nada disso... - ele balbuciava, quase sem controle, e depois, olhando-a dentro dos olhos, disse: -  Preciso tanto de voc!
         Quando ele a beijou apaixonadamente, Charlotte quis protestar, impor sua opinio, esclarecer que no poderiam ter qualquer tipo de relacionamento sem confiana
mtua, mas seus sentidos obedeciam mais ao comando da boca de Daniel do que ao de sua vontade.
         Nada mais existia no mundo alm das sensaes que os lbios dele provocavam.
         Charlotte permitira-se ficar aborrecida a respeito de uma bobagem, ela pensou mais tarde, quando j estava encolhida na cama, revivendo os ltimos eventos.
         Novamente, fora sensvel demais, procurando problemas onde no existiam. Afinal de contas, Daniel no dissera o quanto a valorizava? E naquela noite, sem
dvida, ele tambm mostrara o quanto a queria. Talvez ele no tivesse usando a palavra "amor", mas Charlotte no esperara tanto. Ambos eram maduros o suficiente
e j estavam cansados de palavras.
         No, o que necessitava da parte de Daniel naquele momento, antes de ele falar de amor, era ouvi-lo dizer que cometera um engano no seu primeiro julgamento
sobre ela, que o fracasso que ela sofrera no tinha nada a ver com sua competncia e inteligncia.
         Na manh seguinte, Charlotte disse a si mesma com firmeza que precisava deixar o passado para trs e dirigiu-se ao escritrio com a lembrana das palavras
elogiosas de Daniel vibrando em seus ouvidos e no se permitiu qualquer tipo de lamria.
         Daniel teria um compromisso no Tribunal, por isso ela no se surpreendeu por no encontr-lo.
         Anne veio ao seu encontro com a correspondncia e avisou, breve:
         - Daniel chegar bem mais tarde hoje.
         -  Sim, eu sei - Charlotte respondeu e, ao pegar a correspondncia, notou o olhar surpreso de Anne.
         - Como sabe? Daniel me telefonou agora - Anne falou, espantada.
         - Ah... Daniel, bem... ele me telefonou ontem  noite para me falar sobre este compromisso.
         -  Hum! Eu estava imaginando como voc podia saber.
         No havia nenhuma razo especial para esconder de Anne que ela jantara com Daniel na vspera, mas o que houvera entre eles, a completa modificao no seu
relacionamento, tudo ainda era to novo que ela queria manter segredo e usufruir aquela descoberta em completa privacidade por um tempo.
         Talvez nem ela acreditasse realmente no que tinha acontecido.
         Mas... acreditar em qu? Que Daniel a queria? Ela procurou afastar as dvidas que a assaltavam e censurou-se mais uma vez por no cumprir a promessa que
se fizera, de s ter pensamentos positivos.
         Charlotte trabalhou com afinco toda a manh, congratulando-se por ter descoberto um pequeno precedente que ajudaria em um caso difcil.
         Estava mergulhada na leitura de um processo, quando Anne surgiu, parecendo muito contrariada. O rostinho em geral alegre estava amuado.
         - Alguma coisa errada? Algum problema? - perguntou Charlotte.
         -  esta mulher.
         - Que mulher?
         -  Patrcia Winters. Eu fui pegar uma xcara de ch e, quando voltei, encontrei-a andando perto da sala de Daniel. Ginny j tinha lhe dito que ele no estava.
Francamente, no sei como ele a suporta.
         -  Bem, ela  uma cliente - Charlotte procurou acalm-la, embora sentisse um frio no estmago.
         -  Ela era, voc quer dizer. Os direitos sobre os bens do marido j lhe foram garantidos, mas ela continua a vir aqui, atrs de Daniel, sem nem se dar ao
trabalho de marcar uma hora. No entendo a pacincia que ele tem com ela. Sei que ela  rica e acho que tambm  sexy, mas pensei que Daniel tivesse mais gosto.
Aqui no escritrio, sempre fizemos brincadeiras sobre um namoro entre eles, mas nunca pensei, at recentemente, que houvesse mesmo alguma coisa.
         - E agora, voc acha que h? - Charlotte perguntou, com muita calma, mas com o corao batendo des-compassadamente.
         Anne deu de ombros.
         -  Ora, o que mais podemos pensar?  como eu disse, o testamento do marido dela era bem simples. Ela herdaria tudo. Mas isto foi um choque, porque Paul
Winters tinha um enteado, Gordon, e eles eram muito unidos. No entanto, ele no recebeu nada. Bem, j consegui me livrar de Patrcia de qualquer modo. Disse-lhe
que Daniel no voltaria hoje.
         A palidez de Charlotte chamou a ateno de Anne e ela perguntou, preocupada:
         - Aconteceu alguma coisa?
         - O qu? No, no - Charlotte mentiu. - Eu estava apenas pensando por que Daniel teria aceito o caso Calvin.
         Os comentrios de Anne chocaram e entristeceram Charlotte. No acreditava que Daniel se comportasse de modo to romntico com ela, se j estivesse envolvido
com algum. Mas, se o caso de Patrcia j estava resolvido, por que ela continuava a procur-lo? Por que ele permitia que ela ocupasse tanto o seu tempo?
         Charlotte estava to absorta nos prprios pensamentos que sobressaltou-se quando Anne falou:
         - O caso Calvin  aquele em que o empregado quer a mesma vantagem da mulher, quando ela ganha a licena gestante, no ?
i
         - , e parece ser muito interessante - respondeu Charlotte, sem saber como conseguia se controlar diante de Anne. - Mas acho que ser difcil vencer.
         -  tpico de Daniel aceitar casos como este.
         - Por qu? Acha que dar muito espao na mdia? - Charlotte perguntou, seca.
         Anne sacudiu a cabea vigorosamente.
         - No, Daniel no  assim. Ele est mais interessado em fazer justia do que em ganhar dinheiro. Voc nem imagina o nmero de casos que ele aceita, sabendo
que no ser pago como deve. Claro que o escritrio recebe casos muito vantajosos tambm.
         -  Bem, a filantropia necessita de financiamento, no  mesmo? - Charlotte perguntou, irnica.
         Depois que Anne se retirou, Charlotte levantou-se e ps-se a olhar pela janela.
         Tenha calma e pense com lgica, ela disse a si mesma. Talvez Daniel estivesse lisonjeado pelo interesse de Patrcia, talvez at o tivesse encorajado, afinal,
ele a conhecera antes de Charlotte. O fato de ele ter tido um relacionamento com aquela mulher no significava que ainda estivesse envolvido com ela.
         Mas ele levara Patrcia para jantar na noite em que sara com Sara. Apresentara-a como cliente, mas naquela ocasio, segundo Anne, o caso dela j estava
julgado e encerrado.
         Bem, se estava to preocupada, o melhor que tinha a fazer era perguntar a Daniel. Era fcil tomar uma deciso, porm Charlotte sabia que jamais executaria
tal coisa. No era to confiante a ponto de interrog-lo sobre suas antigas relaes. Conheciam-se h to pouco tempo, no se julgava com este direito e, alm do
mais, o que havia entre eles de fato?
         Tinham um relacionamento?, ela se perguntou, com um n na garganta. Talvez Daniel estivesse apenas se divertindo com ela, talvez...
         Pare de ser estpida. Daniel no  este tipo de "homem", ela se censurou novamente.
         Aquele pensamento confortou-a por um tempo, mas logo uma voz interior perguntou-lhe se ela o conhecia to bem para fazer aquela declarao.
         Que coisa! Por que se atormentava com aquelas dvidas? Por que no aceitava as coisas conforme se apresentavam? Por que se sentia to rejeitada, como uma
criana abandonada?
         No meio da tarde, Daniel retornou. Charlotte soube que ele voltara porque o ouviu ditar uma carta para Anne. Algum tempo depois, ele abriu a porta de comunicao.
         - Muito ocupada?
         A suavidade da voz dele causou o efeito de sempre em Charlotte. Ele aproximou-se e parou ao lado dela. Erguendo a cabea, ela o fitou com um aperto na garganta,
cheia de timidez.
         De repente, Charlotte teve certeza de que aquele era o momento em que ele lhe diria que tudo o que acontecera na vspera fora um terrvel mal-entendido,
que ele lamentava.
         -  J lhe disse o quanto apreciei estar com voc ontem  noite? - ele perguntou, com ternura.
         Charlotte no conseguiu esconder o alvio, a felicidade que aquela pergunta lhe trouxe.
         - O caso que voc foi acompanhar correu bem? - ela perguntou, hesitante, o rosto brilhando de alegria.
         -  Sim. Vencemos. - Daniel fez uma pausa e depois acrescentou: - Acho que voc est certa, o escritrio no  o lugar para falarmos sobre assuntos pessoais.
         Charlotte o olhou, e ele estava sorrindo. Ento, teve um impulso de dizer-lhe como se sentia de verdade, como estava confusa e insegura e como ficara magoada
poucos instantes atrs, mas apenas comentou, com voz trmula:
         - Fiz umas pesquisas sobre o caso Fielding e acho que encontrei um precedente que pode nos ajudar.
         - Encontrou? Otimo! Venha  minha sala e traga o processo com voc. Quero dar uma olhada.
         Charlotte fez o que Daniel sugeriu e, depois de pegar o processo, acompanhou-o at a sala anexa.
         Daniel puxou uma cadeira para perto da escrivaninha dele e apontou para Charlotte.
         Olhando as diversas coisas espalhadas sobre a mesa, o olhar dela recaiu sobre o processo de Patrcia Winters.
         - A sra. Winters esteve aqui mais cedo, procurando por voc - Charlotte disse, desejando que sua voz no trasse seus sentimentos.
         -  Eli sei. Anne me informou.
         A voz de Daniel modificou-se de repente e tornou-se tensa, mas Charlotte ignorou aquele sinal e continuou:
         - A sra. Winters vem muito aqui, no  mesmo? H algum problema com o testamento do marido dela?
         Prendendo a respirao, esperou pela resposta dele, enquanto se censurava por ter sido to ardilosa, buscando saber alguma coisa atravs de um artifcio.
Por que no perguntava o que queria saber de uma maneira direta, corajosa? Estaria Daniel silencioso demais? Ser que ele conseguia ler seus pensamentos?
         Charlotte comeava a se classificar de idiota, quando ele falou, bruscamente:
         - Poderamos dizer que sim.
         Extremamente embaraada, ela baixou o olhar, sentindo o rosto ruborizar-se. Ele, no entanto, estendeu a mo e pegou o processo de Patrcia, colocou-o dentro
de uma gaveta e fechou-a  chave.
         Charlotte reagiu quela ao como se tivesse levado um tapa.
         No podia acreditar. Tudo acontecera to rpido, ele mentira com tal naturalidade, e mentira para ela. Por que no dissera qualquer outra coisa? Se queria
engan-la, por que no escolher algo mais plausvel em relao a Patrcia Winters? Escolhera a mentira mais fcil de ser descoberta.
         Sentada, imvel, como que anestesiada pela frustrao e incredulidade, Charlotte ouvia-o falar, mas com o pensamento to longe que no absorvia nada do
que ele dizia.
         Daniel lhe mentira, fria e deliberadamente. Por qu? Por qu? Achava que sabia a resposta. Era porque no havia nenhum relacionamento de advogado-cliente
com Patrcia Winters e ele no queria que Charlotte soubesse o que realmente havia entre eles.
         E depois, aquele gesto de chavear o processo, sem nenhuma explicao, era tpico de algum que se sentia culpado.
         Apesar do tumulto que se agitava dentro dela, Char-lotte conseguiu dar as respostas certas e fazer os comentrios exatos, de forma que Daniel no percebesse
o inferno que estava vivendo.
         Somente quando ela se levantou para retornar  sua sala, no momento que Daniel tocou seu brao, com um sorriso sedutor na boca bem-feita, que Charlotte
sentiu-se voltar ao momento presente e reagiu.
         Delicadamente, evitou-o. Procurou usar toda a calma possvel, embora a expresso de seu rosto fosse a de algum que tivesse sofrido um desastre e ainda
no compreendesse o que havia acontecido.
         Antes que Daniel a tocasse outra vez, ela se afastou. Depois que ele lhe mentira, no podia suportar a idia de deix-lo toc-la.
         Era sua nica defesa e sua nica vingana.
         -  Tenho um jantar de negcios esta noite - Daniel disse. - Mas pensei que talvez no final de semana...
         - No.
         A recusa escapou de uma maneira to breve e brusca que ele franziu o cenho e olhou-a com ateno, como quem procura descobrir algum mistrio.
         - Charlotte, aconteceu alguma coisa? O que h de errado? Voc est aborrecida? - Ele parecia verdadeiramente ansioso. - Se por acaso... ontem  noite ofendi
voc, pressionei-a demais... fui muito longe...
         Charlotte gostaria de se dominar melhor e parar de tremer.
         Daniel soava to sincero, to cheio de preocupao por ela, pelo seu bem-estar. Se continuasse ali, parada diante dele, comearia a gritar, colocaria toda
sua angstia para fora, iria dizer-lhe como ele a ferira.
         Seus beijos, seu carinho nunca a ofenderiam, mas sim o modo como a estava enganando. Ela o amava de uma forma que exigia que ele fosse exclusivamente seu.
Seu amor no suportava que ele a visse como mais um passatempo amoroso no meio de seus romances.
         Lgrimas quentes de tristeza e vergonha estavam prestes a rolar-lhe pelas faces e no podia permitir tal coisa. Seria vergonha demais! Precisava fugir dali,
sair da frente dele antes de perder o controle por completo.
         Mas, de algum modo, conseguiu falar:
         -  No... no  nada disso. Voc no me ofendeu.
         Charlotte virou-se e comeou a caminhar, mas Daniel a segurou pelo brao.
         -  Charlotte, este final de semana...
         -  No. Eu no posso. Tenho outro programa para o final de semana - ela respondeu, numa voz rouca.
         Ela no conseguia encar-lo, pois por nada do mundo queria que ele testemunhasse a misria que se refletia em seu olhar.
         Daniel soltou o brao dela, afastou-se um pouco e falou, com um tom frio na voz:
         -  Ah! Est bem. Compreendo. Bem, talvez algum outro dia.
         Aps colocar a pasta que segurava sobre a prpria mesa, Charlotte correu para a toalete feminina e ficou aliviada ao ver que estava vazia. Ento permaneceu
l, com o rosto entre as mos, at sentir que a treme-deira passara e que o enjoo de seu estmago cedera.
         Levantando-se, ela olhou no espelho e, ao ver a expresso abatida, no pde deixar de lembrar da felicidade com que chegara ao escritrio naquela manh.
         Nem tudo era apenas culpa de Daniel, ela disse a si mesma. Talvez fosse a nica responsvel. Afinal, a maneira como se entregara era uma demonstrao de
que estava disponvel... demais.


        CAPTULO VIII

         No adiantava!
         Charlotte no poderia agir como uma covarde, entregar seu pedido de demisso e sumir sem deixar rastro. Esta foi a concluso a que ela chegou aps uma semana
analisando os ltimos acontecimentos.
         Ainda naquela manh, recebera os extratos de seu banco e verificara que sua dvida, apesar de vir pagando religiosamente, no parecia diminuir. Foi um tremendo
susto constatar o quanto ainda devia.
         Aquilo queria dizer uma nica coisa: no estava em condies de ficar sem emprego. Nem moral, nem financeiramente. Teria que endurecer, ranger os dentes
e seguir em frente.
         Segunda-feira de manh, quando voltou ao trabalho, seu rosto estava fino e plido e seus olhos, fundos.
         Aquele novo estresse em cima do que j sofrera com o fechamento de seu escritrio deixara Charlotte muito nervosa, sobressaltando-se  toa, com vontade
de chorar por tudo.
         Mas graas  Deus ela estava com sorte. Daniel tinha ido a Londres para fazer um trabalho em conjunto com outro advogado.
         Charlotte no comia nem dormia direito e seu prprio corpo comportava-se como seu inimigo, no fazendo nada do que ela determinava.
         Muitas vezes, acordava no meio da noite sonhando com Daniel, com seus beijos, e seu desejo por ele parecia ser to grande que lhe doa. Pouco adiantava
lembrar-se da razo pela qual no podia mais sonhar com ele.
         Durante o dia, era mais fcil, pois podia afastar aqueles pensamentos fnebres, porque havia sempre bastante trabalho. No entanto,  noite no havia defesa.
Deitada na cama, ela chorava baixinho, lamentando o fim de seu curto envolvimento com Daniel. E quando, cansada, adormecia, seus sonhos eram cheios das imagens dos
momentos ntimos que vivera com ele.
         Seria verdade que estava to abatida a ponto das outras pessoas lhe perguntarem se tinha algum problema? Na verdade, seu maior tormento era que, por mais
que se censurasse e se esforasse, no conseguia deixar de amar Daniel.
         Daniel retornou de Londres um dia antes do que era esperado.
         A fisionomia dele tambm parecia cansada e tensa, observou Charlotte, surpresa quando o viu. No havia nem sinal de seu habitual sorriso, e seu olhar parecia
vazio e frio. Comportava-se de modo automtico, como se estivesse longe dali.
         - Seu carro est aqui? - ele perguntou a Charlotte, entrando na sala dela.
         Quando ela respondeu que sim, ele falou:
         - Otimo, vou precisar dele e de voc.
         E ento, antes que ela tivesse tempo de responder, ele saiu, obviamente esperando ser seguido.
         Charlotte parou ao lado do carro, que estava estacionado na pracinha, e observou Daniel, meio confusa.
         -  Voc dirige - ele disse e, depois de um breve silncio, acrescentou: -  John Balfour. Ele morreu ontem  noite. Telefonaram para mim em Londres e querem
que eu providencie algumas coisas, pois sou o executor de seus bens.
         A voz dele soava cansada e derrotada e Charlotte compreendeu que no fora apenas um cliente que ele perdera, mas um verdadeiro amigo.
         Sem palavras para confort-lo naquele momento, ela entrou no carro.
         -  Peguei o primeiro trem que pude e no fui at em casa, por isto estou sem meu carro. Mas, neste momento, acho que no seria um bom motorista.
         -  Vejo que John significava muito para voc - Charlotte comentou.
         -  Sim. Se quer mesmo saber, ele representava meu ltimo elo com tia Ldia. Eles foram amigos ntimos.  Acho at que numa certa ocasio foram amantes...
no sei.
         Por sorte, Charlotte possua um bom senso de direo e conseguiu lembrar o caminho da casa onde morara John Balfour. O tempo todo ela estava consciente
da presena de Daniel ao seu lado, apesar de ele estar perdido em seus pensamentos.
         A comiserao pela sua dor venceu todo o ressentimento que Charlotte podia sentir por ele. Talvez ele no a amasse, talvez fosse culpado por iludi-la, mas
ela no podia duvidar da autenticidade de seus sentimentos pelo homem que morrera.
         Assim que eles chegaram, foram conduzidos ao quarto de John Balfour.
         Sem seu costumeiro habitante, o quarto parecia sombrio e diferente.
         Se ela sentia a ausncia de seu habitante aps uma nica visita, como Daniel deveria se sentir?
         Ela olhou-o furtivamente e o viu movendo-se pelo quarto, como quem examina tudo.
         -  O sr. Balfour no possua muitos objetos - a diretora da casa disse. - Aqui esto seus documentos - ela finalizou, entregando uma caixa a Daniel e se
retirando em seguida.
         Ele examinava todas as gavetas devagar e visivelmente pesaroso. Charlotte se perguntava qual teria sido o motivo pelo qual quis que ela o acompanhasse.
         - John tinha muitos parentes? - ela perguntou, um pouco insegura, mas incapaz de suportar o silncio por mais tempo.
         - Apenas primos distantes. Por enquanto vou guardar suas coisas. Em casa tenho espao suficiente para tudo.
         Naquele momento, Daniel abaixou-se, olhou debaixo da cama e puxou uma pesada caixa de madeira.
         Algum fora gentil e trouxera uma bandeja com uma xcara de ch e Charlotte comeou a servi-lo. Procurou esquecer, temporariamente, a mgoa e a dor que
ele lhe havia causado, afinal nenhuma pessoa com corao podia ficar insensvel diante de sua dor evidente. O modo como Daniel tocava os objetos, o respeito com
que mexia nos pertences do falecido mostrava como ele fora profundamente atingido.
         Charlotte desejou que algum dia algum tambm tivesse aquele respeito pelas suas coisas. Ela estava emocionada e precisava controlar-se para no chorar.
         De repente, notou que os movimentos de Daniel haviam parado. Ele estava imvel, segurando uma pilha de velhas cartas, amarradas por uma fita.
         - Alguma coisa errada? - Charlotte perguntou.
         Daniel sacudiu a cabea.
         - Nada.  que estas cartas foram escritas por minha tia Ldia, reconheo a letra dela.  estranho como nos sentimos diferentes em relao s coisas das
pessoas que amamos e que j morreram.
         Durante um tempo, Daniel ficou em silncio, pensando.
         - No me sinto  vontade para l-las, contudo. Meu instinto me diz que so muito pessoais, com segredos talvez. Foram escritas para John e somente ele tinha
o direito de v-las.
         Virando-se para Charlotte, ele contou-lhe:
         - Minha tia Ldia e meu pai muitas vezes discutiram por causa de minha carreira. Ela queria que eu seguisse seus passos e ficasse com o seu escritrio e
meu pai tinha outros sonhos para mim. Eu mesmo nem sabia exatamente o que queria. Naquele tempo, ela me conhecia melhor do que eu prprio.
         Daniel continuou a olhar para as cartas, indeciso. Movida mais pelo instinto do que pela lgica, Charlotte aproximou-se e, tocando-lhe o brao, disse:
         - Guarde as cartas. Voc pode achar que seria uma violao l-las, mas as geraes futuras que no a conheceram pessoalmente, seus filhos e netos, podero
achar interesse nelas.
         Daniel virou-se para ela.
         - Meus filhos e netos? - A voz dele soou amarga. - De certa forma, no acredito que... - Ele se interrompeu e olhou para o mao de cartas outra vez. Com
um gesto inesperado, entregou-lhe o pacote.
         - Muito bem, ento, a deciso  sua.
         Charlotte segurou as cartas desajeitadamente.
         -  Mas, Daniel... eu no posso... no sei... Ela no era...
         - Voc  uma mulher - Daniel falou. - E uma advogada, como tia Ldia. Se estivesse no lugar dela, o que gostaria?
         Ao dizer isto, ele se virou e continuou a examinar os papis. Charlotte mal podia acreditar na atitude dele. Demonstrava uma enorme confiana nela, depositando
algo que pertencera  sua tia querida em suas mos. Era um gesto muito importante, pois sabia o quanto Daniel a amara. Estranho que confiasse nela para aquele assunto
to pessoal.
         Charlotte pensou em protestar. Afinal, Ldia era tia dele. Mas faltava-lhe coragem para contrari-lo naquele instante; seu amor enchia-a de compaixo.
         Ela colocou o mao de cartas dentro da bolsa e terminou o ch, dando tempo a Daniel para controlar suas emoes.
         Meia hora mais tarde, ele falou outra vez:
         -Acho que j fiz tudo que era possvel aqui. A diretora da casa j arranjou o necessrio para o funeral.
         Ele no tocara no ch e Charlotte no insistiu. Tambm controlou-se para no perguntar por que a trouxera com ele, quando no pudera ajudar em nada.
         Ao caminharem em silncio para o carro, Daniel disse simplesmente:
         -  Obrigado.
         O que ele estava agradecendo?, ela quis perguntar, mas as palavras ficaram engasgadas na garganta. Aquele era um lado vulnervel e frgil de Daniel que
ela no conhecia e que jamais esperara que ele lhe revelasse.
         -  Receio ter que incomod-la e pedir que me d uma carona at em casa - Daniel disse.
         - No  nenhum incmodo para mim - respondeu Charlotte. - Voc s precisa me orientar porque no sei aonde mora.
         Ela olhou-o e ficou surpresa com a expresso de seu rosto. Era uma mistura de amargura e dor, como se ela o tivesse ofendido. Mas no dissera nada rude...
         -  No, voc no sabe, no  mesmo?
         No havia engano possvel. Ele estava muito aborrecido. Mas no saber onde ele morava era to grave assim?
         Daniel morava do lado oposto de Charlotte. Ele a conduzia com explicaes claras e precisas. No era um lugar como ela havia esperado, da moda. Ficava realmente
no campo, um lugar quase escondido.
         -  Desculpe. Acho que pedi demais trazendo-a to longe - ele comentou, quando o carro pegou uma pequena estrada estreita. - Espero no estar interferindo
em algum plano que tenha feito para hoje  noite.
         Charlotte sacudiu a cabea, negando.
         -  Vire aqui  esquerda - Daniel indicou um pequeno desvio.
         A estrada era bastante esburacada e parecia ser usada somente pelos moradores da regio.
         Charlotte no tinha a menor ideia sobre que tipo de casa ele morava, talvez em uma casa moderna ou alguma de estilo Vitoriano reformada, como estava na
moda. Dirigindo com cuidado na estrada acidentada, ela fantasiou vrios tipos de casa que combinariam com Daniel.
         Certamente, o que no esperara foi a casa de fazenda com que se deparou no fundo da rua.
         -  Comprei esta casa num impulso - ele explicou, como se tivesse acabado de ler-lhe a mente. - Eu a vi pela primeira vez trs anos atrs e me apaixonei.
As pessoas que haviam reconstrudo a velha fazenda estavam se mudando para o exterior. O outro lado da casa  quase todo de vidro, no d para ver daqui. Tem uma
vista inacreditvel. Alguma coisa neste lugar me atrai. Talvez seja a espcie de luz. No vero parece mgico, a combinao da luz do sol com a madeira e o vidro.
         A parte visvel era de tijolo vermelho e o caminho at l era revestido de pedras irregulares, ladeado de arbustos e mais alm uma grama verdssima perdia-se
de vista. O perfume da vegetao e o ar puro penetravam nas narinas e Charlotte inspirou fundo, como se quisesse desfrutar para sempre daquela pureza do campo.
         Parando o carro, ela esperou que Daniel descesse, mas, sbito, ele virou-se para ela e pediu em voz baixa e tensa:
         - Jante comigo, Charlotte.
         Jantar com ele?
         Ela o encarou, confusa pelo convite, o corao comeando a bater disparado, seus sentidos alertando-se.
         Charlotte podia sentir seu perfume msculo, vindo da prpria pele e no de um frasco. Podia ver a tristeza que os ltimos acontecimentos haviam colocado
em seus olhos e na sua boca. Daniel no precisava dizer nada, ela sabia que ele no queria ficar sozinho.
         Charlotte quis protestar e dizer que no era um remdio antidepressivo, que no queira ser usada, apenas por ele estar atravessando um momento difcil,
mas no teve coragem e seus argumentos escaparam-lhe.
         Simplesmente obedecendo seu pedido, ela livrou-se do cinto, desligou o motor do carro e desceu. Fez tudo contra a voz da prpria razo.
         -   por aqui.
         Daniel conduziu Charlotte pelo caminho de pedras para o outro lado da casa.
         A luz do dia comeava a desaparecer, mas ainda havia o suficiente para que ela se deslumbrasse com o que via.
         A parte anterior da casa era quase toda de vidro e as janelas encaixavam-se em grossos painis de carvalho. O arquiteto devia estar inspirado no dia em
que desenhara aquela perfeita mistura de antigo e moderno.
         Daniel abriu a porta.
         -  Entre - ele convidou, acendendo as luzes e seguindo para uma aconchegante cozinha.
         A decorao combinava tijolos e carvalho, casando-os em perfeita harmonia com todos os confortos modernos.
         Era muito fcil imaginar uma famlia morando naquele lugar, rindo, brincando, amando-se, aproveitando o privilgio de viver ali.
         Contudo, no era fcil imaginar Patrcia Winters em um local to rstico e pouco formal, diferente da maioria das casas, Charlotte refletiu, olhando ao
redor.
         -  Bem, qual  sua opinio?
         Ela estava to absorta nas suas ponderaes que a voz baixa e suave de Daniel causou-lhe um leve sobressalto. Por alguns segundos, pensou que ele tivesse
pedindo sua opinio sobre a presena de Patrcia naquele ambiente e s depois compreendeu que ele se referia  casa.
         -  E simplesmente maravilhosa - ela respondeu, com toda sinceridade.
         O rosto dele se iluminou com o primeiro sorriso do dia.
         - Espere at ver a vista, do andar de cima.  deslumbrante, inspira at um sentimento de respeito diante da natureza. Principalmente no nascer do sol.
         Os olhos de ambos se encontraram e pareciam no querer mais se separar.
         Charlotte sentiu a boca seca e era difcil engolir. Uma mistura eletrizante de tenso e excitamento invadiu seu corpo, deixando-a fraca.
         Ela foi salva do abismo onde ia se precipitando pela voz de Daniel.
         - Agora que voc concordou em jantar comigo, preciso ver se tenho comida.
         As palavras eram sociais e simples, mas a rouquido de Daniel denunciava uma forte emoo, e Charlotte arrepiou-se como se tivesse sido tocada.
         Ela o observou abrir a geladeira e dizer qualquer coisa sobre massa. Charlotte respondeu automaticamente, nem sabia bem o qu, tal era o estado de torpor
em que se encontrava.
         O que havia de errado com ela? J estivera sozinha com ele outras vezes, sem experimentar aquele tipo de reao.
,
         Tudo bem, ela o desejava, amava-o, mas aquela completa submisso  presena dele, aquele desaparecimento da lgica era-lhe pouco familiar e certamente no
sabia como lidar com aquele sentimento.
         Charlotte encontrava-se perdida num mar de emoes, quando um aroma suave de tomates maduros e ervas frescas espalhou-se pela cozinha. Daniel serviu um
copo de vinho branco para ambos e, ao entregar o dela, seus olhares perderam-se um no outro. Ele estava mais corado do que o habitual. Devia estar tambm sob o efeito
da emoo.
         O vinho era forte e picante, fazendo-a imaginar a bela regio dos campos italianos onde ele fora produzido.
         Com o clice nos lbios, ela observou Daniel dirigir-se ao fogo. Ele no lhe pedira ajuda e movia-se na cozinha com tanta naturalidade que revelava estar
acostumado quela parte da casa. Porm, no parecia empenhado em querer impression-la com suas habilidades culinrias.
         De repente, Daniel voltou-se para olh-la, como se percebesse a maneira minuciosa com que Charlotte o observava.
         -  Quer que o ajude em alguma coisa? - ela perguntou, um pouco receosa. - Quer que ponha a mesa?
         Ele negou com a cabea.
         -  Jantaremos na sala de visitas. H uma lareira l. Vou acend-la e, enquanto isto voc poderia dar uma olhada nesta carne.
         Quando Daniel voltou da sala de visitas, ela falou:
         - A carne est quase pronta.
         O aroma delicioso do assado fez Charlotte reconhecer que estava com fome. Daniel deu uns retoques finais na refeio, colocou tudo sobre um carrinho de
ch e encaminhou-se para a sala de visitas, sendo seguido por Charlotte.
         Ela o acompanhou por um corredor longo que devia ser a unio com o restante da casa. Na parede, havia muitos quadros, alguns de pintores famosos. Porm,
um dos quadros tinha um destaque especial com luzes indiretas iluminando-o. Era o retrato de uma mulher.
         -  Ldia - Daniel disse, ao ver Charlotte parar para examinar o retrato melhor.
         Havia um ar familiar de semelhana entre os dois, apenas em Ldia os traos eram mais delicados. Tinha os mesmos cabelos e olhos escuros do sobrinho e o
mesmo queixo quadrado que denotava determinao.
         - Vocs so muito parecidos - Charlotte admitiu.
         - Sim, somos parecidos, mas receio que eu no tenha a mesma viso e a mesma determinao de minha tia. No lugar dela, com tudo contra, eu no teria conseguido
conquistar o que ela conquistou. No tenho a mesma pacincia para fazer sacrifcios.
         - Sacrifcios? - Charlotte perguntou, espantada.
         -  Sim. Tia Ldia privou-se de muitas coisas para provar que estava certa na profisso que escolhera. Recusou-se a casar numa poca em que uma mulher solteira
no tinha futuro, porque temia que seu marido interferisse em sua carreira. Ela acreditava ser impossvel conciliar uma bem-sucedida advogada com uma me de famlia.
Era muito realista e no acreditava que pudesse ter tudo.
         Ele soou to descrente que Charlotte desviou o olhar, voltando as observar o retrato.
         -  E voc concorda com ela, que as mulheres no podem conciliar as funes de executiva e me? - Charlotte desafiou-o.
         Ele a encarou.
         - No acredito que algum, homem ou mulher, possa ter tudo. Sempre h alguma coisa a ser sacrificada. Veja, John Balfour amava Ldia e suspeito que ela'
tambm o amava e, no entanto, nunca realizaram este amor. Esta tarde pensei muito a este respeito. Pareceu-me um desperdcio to grande no se entregar ao amor por
qualquer razo.
         Charlotte olhou-o surpresa. No imaginara que ele fosse capaz de fazer aquele tipo de declarao romntica.
         Daniel abriu uma porta e sinalizou para ela entrar. A sala com que Charlotte se deparou era muito grande e bem mobiliada. Uma das paredes era totalmente
de vidro, mas como j estava escuro no se podia ver a paisagem muito bem. O cho era todo em tbuas largas enceradas que brilhavam  luz das chamas da lareira e
das vrias luzes acesas no teto.
         Em um dos cantos da sala havia um piano que atraiu o olhar de Charlotte.
         Percebendo sua curiosidade, Daniel explicou:
         -  Era o piano de Ldia. Quando ela era criana, era costume das boas famlias colocarem seus filhos em aulas de piano. Uma ocasio, ela quis que eu aprendesse,
mas fui um fracasso.
         Dois confortveis sofs estavam colocados um na frente do outro, diante da lareira. Tapetes artesanais cobriam uma grande parte do assoalho de madeira.
         - Vamos comer enquanto est quente - Daniel sugeriu, empurrando o carrinho para a frente da lareira.
         Charlotte sentou-se e, embora no tivesse vontade de comer nada, pegou o prato automaticamente. Contudo, recusou mais vinho.
         -  No quero beber mais. Tenho de dirigir ainda, lembra? - ela disse.
         - Oh! Desculpe, eu tinha esquecido.
         Solidrio com ela, ele tambm no se serviu de mais vinho, o que mais uma vez mostrou a Charlotte como Daniel levava as outras pessoas em considerao.
No era uma caracterstica comum aos homens. Com o tempo, Charlotte aprendera a pensar que a maioria deles era egosta; logo, Daniel era uma exceo.
         Apesar de a comida estar deliciosa, Charlotte lutava com cada garfada, porque um n na garganta no a deixava engolir com prazer. Surpresa, ela viu que
Daniel tambm brincava com seus talheres, comendo muito pouco.
         - No est com fome? - ele perguntou. Sacudindo a cabea, Charlotte respondeu:
         - Sinto muito, mas no estou mesmo com fome.
         Charlotte ergueu-se e uma velha e conhecida sensao de pnico comeou a formar-se dentro dela, provocada talvez pela intimidade do ambiente ou pela sua
prpria vulnerabilidade, mas tudo que sabia  que precisava sair dali o mais rpido possvel.
         Talvez devido ao vinho ou talvez por ter se levantado muito rpido, ela se sentiu meio zonza.
         - Charlotte... - Daniel aproximou-se rapidamente e segurou-a pelo brao.
         Imediatamente, todos os seus sentidos ficaram alertas.
         - Charlotte - ele chamou outra vez, com uma voz emocionada.
         Ela fitou-o, incapaz de afastar-se dele. Sua boca novamente ficou seca e seu corao batia com tamanha fora que teve medo que Daniel escutasse. Charlotte
queria inspirar com fora, para se recobrar, mas no conseguia. Perdida, ficou a olh-lo, sabendo que ele iria beij-la.
         Deveria haver uma meia dzia de coisas que poderia fazer para evitar aquela situao, mas Charlotte permaneceu imvel, observando, esperando, desejando...
Sua imobilidade poderia ser interpretada como um sutil encorajamento ou um convite."
         Os olhos de Daniel mantinham-se fixos no rosto dela, mas logo em seguida ele tocou-lhe a boca com os dedos, numa carcia ao mesmo tempo terna e ertica.
Depois, seus dedos passearam pelo rosto de Charlotte com carcias leves e delicadas, que mal pareciam toc-la, mas que a faziam arder por dentro e desejar mais.
         No suportando esperar, Charlotte ergueu a cabea ao sentir que ele procurava sua boca. E ento entreabriu os lbios para receber o beijo.
         Foi um beijo voraz e excitante. Naquele momento, Charlotte no teve dvidas. Daniel a queria e ela j no tinha mais possibilidades de recus-lo. Ento
ele comeou a acarici-la com gentileza, com cuidado, como se fosse um objeto rarssimo e frgil. Seu corpo reagia com paixo e a nica coisa que lhe vinha  mente
era entregar-se ao abandono dos braos dele.
         No iria pensar em nenhuma Patrcia Winters. Nada era mais importante e urgente que os lbios dele em sua pele. Com uma exclamao abafada, Daniel afundou
o rosto nos cabelos vermelhos de Charlotte, sentindo a maciez que o deslumbrava. No instante seguinte, seus lbios desceram, numa busca exigente, at encontrar os
dela. As mos grandes e fortes acariciaram todo o seu corpo at que penetraram-lhe sob a blusa e tocaram-lhe os seios.
         Como num sonho, Charlotte correspondia com todo ardor e ingenuidade de sua pouca experincia. No fundo do corao, ela sabia que ele era o homem de sua
vida, com todos os direito sobre ela.
         A casa, a sala, a lareira, tudo parecia ter desaparecido e s existiam seus corpos. Nada no mundo poderia toc-los naquele momento mgico. Nem aes ou
pensamentos, apenas emoes.
         Novamente as mos de Daniel, guiadas pela emoo, percorreram com calma e preciso as formas macias e arredondadas de Charlotte.
         Ela, soltando as mos, deslizou-as pelas costas de Daniel, puxando-o contra si, delineando os msculos poderosos com a ponta das unhas, enquanto seus lbios
vidos mordiscavam o pescoo do homem que a aquecia com suas carcias.
         O contato das pernas firmes de Daniel contra as suas fez Charlotte estremecer de prazer, ento ela curvou-se para trs e, fitando-o no fundo dos olhos,
mostrou como estava excitada, depois voltou a aproximar-se devagar, recomeando aquele jogo delicioso que cada vez exigia mais.
         - Charlotte...
         A todo instante na penumbra da sala, ela escutava Daniel cham-la baixinho. Mas ela estava ali, nos braos dele, e tremia de desejo, querendo-o sentir dentro
dela.
         Charlotte gemeu sem pudor, quando ele abriu-lhe o zper do vestido, decifrando as peas ntimas e minsculas. Sentia-se desfalecer nos seus braos e, fechando
os olhos, deixou que as ondas de prazer tomassem conta de seu ser.
         Contudo, mesmo em meio a toda aquela excitao, Charlotte ouviu um som. Sua reao foi segurar-se mais fortemente a Daniel, no querendo aceitar nada que
os interrompesse. Mas ele tambm ouvira o barulho e, embora relutante, foi atender ao telefone.
         Com os msculos dodos pela frustrao de se sentir privada do prazer, ela observou-o pegar o aparelho.
         - Patrcia.
         Mesmo que Daniel no tivesse pronunciado aquele nome, saberia que era ela, pois falava to alto que era possvel reconhecer sua voz.
         - Preciso ver voc agora, querido.
         Daniel voltou-se para Charlotte e, ressentida, ela virou-lhe o rosto. O cime destruiu todo o prazer ,de momentos atrs, corrompeu toda a emoo e s podia
se condenar por estar sempre pronta a se entregar a um homem para quem no passava de um objeto de desejo. No podia mais fingir para si mesma.
         Havia outra mulher na vida de Daniel, a mulher que estava do outro lado do fio  que era importante: seu amor. Um telefonema que ele poderia muito bem ter
ignorado, se quisesse!
         Com dedos trmulos, Charlotte lutava com suas roupas que lhe eram to familiares, mas que naquele momento humilhante pareciam um quebra-cabea.
         Ela ouviu Daniel falando e, aps o que pareceu uma eternidade, ele desligou.
         Ao sentir as mos dele em seus ombros, ela quis empurr-lo, mas procurou se conter.
         -  Charlotte, sinto muito ter tido de atender, mas so negcios...  importante.
         At ento, Charlotte no percebera quanta esperana ainda tinha em ouvi-lo dizer que aquele telefonema havia sido um contratempo, sem o menor interesse
e que nada importava mais do que estar com ela e am-la.
         Seu corao estava pesado e sentia um gosto amargo na boca. Seus olhos ardiam com as lgrimas que no podia chorar.
         -  Tudo bem - respondeu, seca. - Compreendo que os negcios devam vir em primeiro lugar.
         De propsito, ela acentuou a palavra "negcios" e o encarou.
         Daniel estava seminu e naquelas novas circunstncias poderia parecer meio ridculo. Qualquer homem, sim, mas no ele. Tudo o que causava era reforar os
sentimentos de Charlotte por ele e aumentar ainda mais a dor de t-lo perdido.
         Se ele se aproximasse, dissesse que no se preocupava com Patrcia, ela ainda seria capaz... mas ele no o fez.
         - Charlotte, infelizmente vou ter de sair. Trata-se de um negcio. No posso...
         - No h necessidade de explicaes - ela respondeu, cortando suas palavras.
         Um negcio! Ento, ele a considera uma perfeita imbecil? Ele no notara como Patrcia falara alto e que ela ouvira quele "querido"? Ou talvez ele achasse
que ela no se incomodaria de ele sair de seus braos direto para os braos de outra?
         Charlotte sentia-se enjoada. Juntou suas coisas sem olhar para ele. Dirigiu-se  porta e abriu-a, sem esperar por Daniel. Incomodava-a t-lo por perto.
Sentia-se doente com a prpria estupidez, com a prpria vulnerabilidade. Era a segunda vez que Daniel a frustrava de um modo imperdovel.
         Quando ela recordava as coisas que dissera no ouvido dele, as coisas que fizera, seu rosto queimava de vergonha.
         Daniel seguiu-a at o carro. Era um homem muito bem-educado. Charlotte precisou conter um riso histrico. Afinal, tanto quanto ele, tambm queria manter
a classe.
         O que seria ser bem-educada, ter classe naquela situao? Fingir que compreendia, que tudo era muito natural?
         Apesar de no estar em condies de dirigir, Charlotte agiu maquinalmente, porque queria se ver longe dali o mais rpido possvel.
         Daniel passaria a noite com Patrcia? Seria ela a mulher a acordar nos braos dele?
         Ela praguejou baixinho, enquanto as lgrimas desciam-lhe pelo rosto.
         Quando precisara fechar o escritrio e declarar falncia, Charlotte pensara que ficara conhecendo toda a humilhao e desespero, mas nunca imaginara passar
por aquele tipo de sofrimento: amar um homem e ter amor rejeitado, ser vista apenas como uma simples satisfao para sexo.
         Mas merecia o que tinha acontecido, ela disse a si mesma. Assim como tambm merecera o fracasso de seu escritrio. A culpa era dela e de ningum mais. Precisava
ao menos ser honesta.
         Poderia ter recusado o convite para jantar e, mais que tudo, deveria ter recusado qualquer intimidade fsica.
         Como iria enfrent-lo na manh seguinte, sabendo que passara a noite com Patrcia? Tudo que Charlotte desejava era esconder-se em algum lugar, que ningum
a visse, um lugar onde no lembrasse que conhecia uma pessoa chamada Daniel Jefferson e muito menos que o amara.
         Por um instante, Charlotte brincou com a idia de nunca mais voltar ao escritrio, mas ela sabia que era uma opo impossvel.
         No. Teria de enfrentar aquela situao de alguma forma e fazer Daniel saber que o que acontecera entre eles tinha to pouca importncia para ela como tinha
para ele. Mas, como?


        CAPTULO IX

         Charlotte sentou-se  mesa. Ir trabalhar naquela manh fora uma das tarefas mais rduas que ela j tivera que realizar na vida. Mas era engraado como,
comparado com o que sofria, no significava nada.
         Uma rpida olhadela no espelho da recepo tinha confirmado o que ela j sabia: nem toda a maquilagem que aplicara antes de sair conseguira esconder a imensa
depresso que a dominava, nem as lgrimas que derramara.
         Secretamente, Charlotte rezava para que pelo menos naquele dia Daniel ficasse fora.
         Na noite anterior, ela no dissera: "Eu te amo", mas por certo tudo o que fizera devia ter revelado como se sentia a respeito dele. Ou talvez ele tivesse
interpretado de outra maneira. Assim como s a queria como parceira sexual, poderia pensar que se passava o mesmo com ela.
         Ou talvez Daniel no pensasse em nada a no ser em Patrcia.
         Quando Charlotte escutou a porta da outra sala se abrir, inclinou-se para frente, para proteger o rosto. As palavras no papel  sua frente no passavam
de manchas embaralhadas.
         Por um tempo, ela no pde trabalhar, na expectativa de que Daniel entrasse a qualquer momento, mas depois, graas a muito esforo, concentrou-se num processo.
         As dez horas, Anne apareceu com a correspondncia do dia.
         -  Meu Deus, como voc est plida - Anne espantou-se. - Ser que est doente?
         -  Oh! No, acho que no - negou Charlotte.
         - Voc sabe qual era o assunto urgente que Patrcia Winters tinha para tratar com Daniel? Ele telefonou do carro, dizendo que passaria na casa dela primeiro.
Imagine, assim to cedo... Com certeza, recebeu-o de nglig preto.
         Charlotte no conseguiu esconder o tremor que a tomou. Anne percebeu alguma coisa errada e perguntou de novo:
         - Voc tem certeza de que est bem, mesmo?
         Charlotte no falou, apenas sacudiu a cabea, lutando contra as lgrimas. Preocupada, Anne ofereceu-se para ir buscar um copo de gua.
         Pobre Anne. No tinha a menor ideia do mal que suas palavras lhe causavam. Mas por que se abalava tanto? J sabia que Daniel estava com Patrcia. Alis,
todo o escritrio j falava do romance dos dois, e ela  que era a intrusa.
         Tudo o que tentara afastar da mente assaltava-a naquele momento de modo cruel. Imagens de Daniel na cama com Patrcia torturavam-na.
         Anne voltou com o copo de gua.
         - Voc est com um aspecto terrvel. Tem certeza de que...
         - No tenho nada,  apenas uma dor de cabea - mentiu Charlotte.
         Anne sugeriu que ela voltasse para casa, pois talvez tivesse pego algum vrus. Quem sabe se tirasse uns dias de licena teria tempo para se recuperar...
         Charlotte gostou da idia e quando foi dizer para Anne que iria embora, a porta de comunicao se abriu e Daniel entrou.
         - Charlotte, por favor, preciso falar com voc.
         Pelo tom da voz dele, ela adivinhou que no era sobre negcios que ele queria falar. Ser que pretendia se desculpar pelo papel odioso que fizera na noite
anterior?
         Quando Anne se retirou, Charlotte falou, sem fit-lo, com os olhos fixos nas prprias mos.
         - Se  sobre a noite passada que quer falar, acredito que no h nada para ser dito.
         - Charlotte...
         Ela ignorou o tom de splica da voz dele e continuou:
         -  Somos ambos adultos, Daniel. O que aconteceu entre ns foi... bem, tenho que ser honesta... receio ter deixado as coisas ficarem um pouco fora de controle.
Quando Richard me entrevistou para o emprego, disse-lhe que era noiva, mas que meu noivado fora rompido, voc deve saber. No gosto de confessar isto, mas acho que
sinto muito a falta de meu noivo... Por isto, o que aconteceu no tem nada a ver com voc. Foi uma fraqueza, um momento de puro sexo.
         Charlotte estremeceu ao dizer aquelas palavras, porm era preciso diz-las para salvar seu orgulho. Preferia aquela mentira a ter de ouvir que ele amava
outra.
         O silncio na sala era to pesado que parecia o prenncio de uma catstrofe, at que Daniel falou:
         - Voc est me dizendo que me usou como um substituto para seu ex-noivo? Que quando me tocou e me beijou era em seu noivo que pensava?
         A voz dele, rouca e amarga, arranhou os nervos de Charlotte, que tremeu e piscou confusa, rezando para que ele no fosse ouvido no corredor.
         Por qu ele reagia daquela forma? Deveria ficar agradecido por ela lhe poupar o trabalho de se explicar e desculpar. Ah! Mas estava esquecendo o notrio
orgulho masculino quando se tratava de seus atributos sexuais. Ele podia us-la, mas ela fazer o mesmo com ele?
         No entanto, sem saber por qu, Charlotte ficou na defensiva.
         - Censura que uma mulher possa se sentir assim? Ela no deveria admitir que tambm tem necessidades fsicas?
         Por dentro, toda a alma de Charlotte se horrorizava com o que estava dizendo, mas no conseguia parar.
         - O que eu acho  que ningum, nem homem nem mulher deveria usar um outro ser humano como substituto, emocional ou fisicamente - Daniel retrucou.
         Depois daquelas palavras, ele se virou, foi para sua sala e fechou a porta.
         Charlotte sentou-se, trmula. O que tinha dito? Ondas de calor e de frio percorriam seu corpo.
         Daniel ficara furioso, mas controlara-se e apenas respondera com palavras geladas. O que ela dissera fora realmente ofensivo. Mas Charlotte procurou acalmar-se,
dizendo a si mesma que fora para o bem e que, se perdera todas as chances, ainda lhe sobrava seu orgulho.
         Na hora do almoo, a dor de cabea que Charlotte fingira incomodava-a de verdade.
         Aparentemente, Daniel havia sado.
         A partir daquele momento ela ficaria muito feliz se nunca mais o visse.
         Sem apetite, trabalhou durante a hora do almoo, mas sua dor de cabea ficava cada vez pior e finalmente ela cedeu e avisou Anne que estava indo para casa
mais cedo.
         Por sorte, a casa estava vazia.
         Charlotte tomou duas aspirinas, despiu-se e deitou-se, mas em vez de dormir ficou repetindo o nome de Daniel. Imagens trridas dos momentos de amor que
vivera em seus braos teimavam em encher-lhe a mente. Imagens de Daniel olhando-a com desprezo e desgosto, depois virando-se para Patrcia, com um olhar de amor
e desejo, torturavam-na ainda mais.
         Mal tinha cochilado um pouco, sua me acordou-a com voz preocupada.
         -  Charlotte, j est em casa? Aconteceu alguma coisa?
         Apesar das objees da me, Charlotte insistiu em trabalhar no dia seguinte. Pelo menos, no poderia ser acusada de ser uma funcionria relapsa.
         Anne, ainda impressionada com sua palidez, ofereceu-lhe uma xcara de caf, e quando voltou havia pego uma para si tambm, sentando-se junto a Charlotte.
         -  Bem, voc perdeu tudo o que aconteceu ontem - ela tagarelou. - Claro, que  para permanecer tudo confidencial. Daniel no quer que se comente fora daqui,
apesar de j estar tudo oficializado.
         O corao de Charlotte bateu mais depressa, com um pressentimento.
         -  O que aconteceu?
         -  Lembra que eu comentei que no compreendia por que Daniel perdia tanto tempo com Patrcia, quando o caso dela j estava encerrado? Ora, eu devia ter
adivinhado, era bastante bvio.
         A garganta de Charlotte ficava cada vez mais apertada, pois j sabia o que Anne ia dizer: Daniel e Patrcia haviam anunciado seu noivado.
         -  Daniel conseguiu convencer Patrcia a entregar uma das manses da herana, para o enteado. Claro, que o fato de ela estar namorando este milionrio ajudou.
Quer que ele a considere magnnima. Assim, Gordon foi beneficiado.
         Charlotte fitou Anne com olhos arregalados. Estava completamente confusa com as novidades da jovem. Como podia afirmar que Patrcia namorava um milionrio,
quando era a noiva de Daniel?
         - Anne, o que est dizendo? Daniel no ficou noivo de Patrcia?
         -  Noivo? - Anne parecia assombrada com a pergunta. - Claro que no.
         -  Ento, o que...
         - Voc sabe, Daniel vem suportando essa mulher o tempo todo para ver se conseguia faz-la mudar de ideia e entregar alguma coisa para o enteado. Pobre Daniel,
teve de aguentar muita coisa... Mas outra noite ela lhe telefonou, dizendo estar pronta para assinar o que ele queria, porque iria partir com o milionrio para a
Flrida e tinha pouco tempo, ele correu atend-la, com medo que mudasse de ideia. Sabe como ela .
         Charlotte estava boquiaberta.
         - Ah! Compreendo. Ento, Daniel deve estar muito feliz e aliviado - ela comentou, num fio de voz.
         - Bem, assim espervamos, mas no sei o que est acontecendo, ele parece muito aborrecido. Bem, talvez seja o funeral de John Balfour. E por isto que ele
no est aqui hoje.
         Charlotte sentia-se doente de remorso e culpa e, muito pior, responsvel pela destruio de tudo.
         Mas Daniel poderia ter explicado, poderia ter-lhe dito...
         Charlotte mordeu o lbio, reconhecendo que no final tudo se resumia numa nica coisa: falta de confiana. Daniel jamais confiara nela e ela sempre soubera,
desde o incio. E da sua parte, tambm no confiara nele como homem.
         O amor que mal comeava fora morto. E talvez tivesse sido melhor assim, porque sem confiana mtua no poderia nunca haver um verdadeiro e saudvel relacionamento
entre eles.
         Mesmo com toda a lgica, Charlotte no podia deixar de refletir o que o seu julgamento precipitado havia custado. O amor de sua vida. Se ao menos ela tivesse
esperado, ouvido, aceitado como verdade as palavras de Daniel de que ele iria tratar de negcios com Patrcia. Afinal, ele no lhe mentira.
         Mas o maior arrependimento de Charlotte era o que tinha dito na manh anterior.
         Se ao menos tivesse ficado calada, e no tivesse querido salvar seu orgulho de qualquer maneira.
         Charlotte estremeceu.
         Como tivera coragem de dizer a Daniel que o usara como substituto de Bevan com tamanho sangue-frio?
         Embora os velhos hbitos do escritrio fossem mantidos a porta de comunicao permanecia aberta entre eles, ele ainda vinha at a mesa de Charlotte e lia
sobre seu ombro, tudo o mais mudara.
         Nunca mais ela o surpreendera fitando-a com olhar carinhoso.
         Onde antes havia calor e uma atmosfera excitante, agora no havia... nada.
         Era como se deliberadamente Daniel se mantivesse longe dela. Havia invisveis barreiras entre eles que tornava impossvel uma abordagem sobre o que acontecera
naquela noite em que Patrcia telefonara. E mais impossvel ainda explicar por que inventara aquela histria ridcula de us-lo como substituto para Bevan. Charlotte
at que tentou num certo momento abordar o assunto, observando a Daniel como ele devia estar feliz com o resultado que conseguira para o enteado de Patrcia.
         -  Na verdade, extrapolei meu papel de advogado e at corri o risco de ela acusar-me de pression-la ilegalmente. Por isto, quis que tudo permanecesse confidencial.
No falei sobre isto nem com Richard.
         - Mas tudo acabou bem, no  mesmo?
         Ele apenas sorrira com ironia.
         -  Mesmo assim, no aconselharia nenhum estudante de direito a seguir meu exemplo. A Ordem dos Advogados no veria meu comportamento com bons olhos.
         -  Sim - concordou Charlotte. - E se Patrcia... a sra. Winters tivesse se queixado de sua presso...
         - Exatamente, minha situao no era confortvel.
         Em seguida, Daniel pedira para ver um outro processo e Charlotte compreendeu que ele queria mudar de assunto.
         Como estivera errada a respeito dele!
         Em seus sonhos. Charlotte revivia inmeras vezes aqueles importantes minutos em que Daniel respondera ao telefonema de Patrcia, mas, ao contrrio da realidade,
ela sempre acreditava no que ele dizia. Nos sonhos, ela estendia os braos para ele e dizia-lhe que iria esperar por ele e que o amava.
         Mas sonhos eram sonhos e no a consolavam.
         No final de semana, Charlotte foi  casa da irm.
         - O que h de errado? - Sara perguntou, enquanto preparava o almoo.
         Desejando desabafar, Charlotte contou tudo o que acontecera, sem se poupar.
         -  Agora, no sei o que fazer - ela admitiu, no final.
         Sara ergueu as sobrancelhas, com ar preocupado.
         - S h uma coisa que voc pode fazer agora, no  mesmo, minha irm? E acho que sabe o que . Tem de ir at Daniel e falar-lhe. Explicar tudo, admitir
que estava errada e que mentiu, quando falou sobre substituir Bevan.
         - No, no. Impossvel. No poderia fazer tal coisa - Charlotte interrompeu. - E, alm do mais, ele no vai querer ouvir nada. Ele est completamente frio
comigo, Sara.
         - E voc no estaria tambm, se fosse o contrrio?
         -  Sara indagou, um pouco agressiva, mas depois acrescentou mais gentil: - Charlotte, voc o ama, ns duas sabemos disso. Est bem, ele pode rejeit-la.
Pode dizer que no est mais interessado, mas mesmo assim acho que vale a pena tentar. Nem que seja para esclarecer tudo.
         O silncio de Charlotte denunciava todo seu horror diante daquela opo. Sara insistiu:
         - Coloque-se no lugar dele, Charlotte. Como voc reagiria se ele lhe dissesse que a usava como uma substituta? Claro que ele tem que se mostrar frio.
         - Mas, e se ele se recusar a me ouvir? E se ele...
         - No estou lhe dizendo o que fazer, estou apenas dizendo o que eu faria se fosse voc. Bem, eu no desistiria do meu amor assim to fcil. Pense um pouco.
O que a impede? Afinal de contas, da forma que as coisas esto, o que tem a perder?
         -  O que sobrou do meu orgulho - Charlotte respondeu, de modo sombrio.
         Ao dirigir de volta para casa naquela tarde, Charlotte no conseguia tirar o conselho de Sara da cabea e quando chegou na encruzilhada, em vez de tomar
a direo que conduzia  casa de seus pais, virou no outro sentido, para o lado onde Daniel morava.


        CAPTULO X

         No final da estrada estreita que conduzia  casa de Daniel, Charlotte quase perdeu a coragem e deu marcha a r, mas ento lembrou outra vez das palavras
de Sara e de quanto amava Daniel.
         Por certo, valia a pena tentar. Tentar o qu? Implorar que ele a quisesse novamente? No teria coragem. E se ele nem a quisesse ouvir? Teria que ir embora
de cabea baixa.
         Mas era tarde demais para retroceder. Daniel trabalhava no jardim e j a vira.
         Quando Charlotte parou o carro, ele veio em sua direo. Usava uma cala jeans desbotada e uma camisa de flanela xadrez com as mangas enroladas.
         Descendo do carro, Charlotte sentiu o corao pesar-lhe cada vez mais, com a dificuldade de sua misso.
         - Charlotte! - ele exclamou, sem um sorriso ou qualquer ternura na voz, fazendo-a perder os ltimos resqucios de esperana que pudesse ter.
         Fora uma bobagem ter vindo. Se pudesse, sairia correndo. No entanto, Daniel olhava-a esperando que ela dissesse o que a trouxera ali...
         Diante da sua expresso distante, ela esqueceu o pequeno discurso que preparara e, quase em pnico, gaguejou:
         - H uma coisa que... preciso dizer pra voc.
         Demonstrando pouco interesse, ele falou:
         -  mesmo? A julgar pelo seu rosto, acho que no vai dizer nada que eu queira ouvir.
         Era como ela imaginara: ele no queria ouvir nada.
         Tomada por uma sbita emoo, Charlotte correu para ele e segurou-lhe o brao, sentindo na tenso de seus msculos como ele resistia.
         Ignorando seu olhar duro, falou:
         - Por favor, Daniel, preciso lhe falar.  importante.
         Por um instante pareceu que ele iria mand-la embora, mas depois mudou de idia.
         - Neste caso, vamos entrar, porque vai chover. - ele sugeriu.
         Grossos pingos de chuva comearam a cair quando eles alcanaram a casa.
         Fora um erro a tentativa de explicao, Daniel j tornara bvio que no era bem-vinda.
         - Acho que economizaremos tempo se eu disser que j sei o que a trouxe e o que quer dizer - Daniel falou.
         O tom da voz dele aumentou a humilhao e infelicidade de Charlotte. Como ele podia ter adivinhado?
         - Daniel - ela suplicou.
         - No, no me diga. Eu sei. Voc veio comunicar que reatou seu noivado e que...
         - No, no  nada disto - ela o interrompeu. - Isto nunca poderia acontecer. Est tudo bem acabado e, na verdade, nunca amei Bevan.
         Charlotte calou-se, procurando controlar o tremor que a dominava.
         - Charlotte... - Daniel murmurou.
         De repente, tudo que ela queria era estar longe, com tudo esclarecido para que pudesse enfim ficar livre daquela vergonha. Erguendo a cabea, encarou-o,
ignorando o prprio orgulho e sofrimento.
         - Eu menti para voc, Daniel - ela falou, lutando com as palavras. - Quando disse que eu... que voc... quando disse que sentia falta de Bevan e que tentei
substitu-lo... eu menti.
         No podia continuar, fora o mais longe que podia. Cabia a Daniel dizer alguma coisa agora. Estava nas mos dele aceit-la ou rejeit-la.
         E, enquanto ela aguardava, com um frio mortal percorrendo-lhe a espinha, ele disse algo inesperado:
         -  Eu sei.
         Aquela simples declarao acabou de arrasar Charlotte e ela dirigiu-se para a porta, sem se importar com a chuva, meio cega pelas lgrimas. Pensara ter
salvo seu orgulho e o tempo todo ele sabia.
         Daniel, porm, alcanou-a, puxou-a para dentro e segurou-a contra a parede, impedindo-a de fugir, ignorando sua luta para se libertar.
         - Charlotte, voc pensa que eu teria acreditado por um minuto que voc fosse aquele tipo de mulher? No primeiro momento estava por demais envolvido e me
magoou ser rejeitado, mas quando me acalmei, refleti e cheguei  concluso de que voc me queria, sim. No  verdade? Que voc me desejava?
         Charlotte no poderia mais mentir.
         - Sim,  verdade. Eu te queria. Agora, deixe-me ir.
         - No. - Ele a segurou ainda mais forte e depois, com a voz suave que ela to bem conhecia, repetiu: - No deixarei voc ir. No desta vez.
         No instante seguinte, ela estava em seus braos e ele a beijava loucamente.
         -  Charlotte, Charlotte... Entendo que pressionei voc, que fui muito precipitado, mas por que no me disse com franqueza? Pode imaginar o inferno em que
me lanou quando me rejeitou daquela forma?
         Ele ainda a beijava pelo rosto todo, tornando difcil para Charlotte responder.
         -  Nunca mais me faa uma coisa dessa. Se acha que no est pronta para se comprometer comigo, se quiser mais tempo, diga. Mas, por favor, no me deixe
fora de sua vida.
         Ele segurou o rosto dela entre as mos.
         - Eu te amo. No posso mudar isto, nem quero me desculpar por isto. Se voc no sente o mesmo por mim, ento tenho que aceitar, mas no minta para mim.
No tente me enganar dizendo que quando est nos meus braos pensa em outra pessoa.
         Charlotte estava to emocionada que conseguiu apenas repetir:
         - Voc me ama?
         - Sim, desde o primeiro momento em que a vi atravessando a pracinha em frente do escritrio. No sabia que voc era a nova advogada contratada por Richard,
mas quando descobri quis que trabalhasse ao meu lado, como minha assistente particular.
         -  Voc quis que eu ficasse ao seu lado porque... porque...
         -  Porque fiquei apaixonado por voc.
         -  Mas, eu pensei...
         Era bom que ele a segurasse, porque seno Charlotte precisaria de uma cadeira, tamanha a fraqueza que a dominava.
         - Voc no desconfiou?
         - Pensei que no confiasse em meu trabalho e por isso queria me controlar o tempo todo.
         Foi a vez de Daniel se surpreender.
         -  Mas o que a fez pensar tal coisa?
         -  Voc era to infalvel, to bem-sucedido. Para todo lado que virasse, s ouvia elogios. E eu tinha acabado de sair da maior falncia. Cometi todos os
erros e me sentia um fracasso.
         - Charlotte, eu li o seu curriculum vitae e vi como voc se esforou, quantas vezes trabalhou at de graa.
         - Mas o que ficou foi o meu fracasso. Foi uma humilhao to grande, perdi o auto-respeito, coisas que voc jamais poder entender, Daniel. Voc s conhece
o sucesso.
         -  isto que pensa a meu respeito? Quero lhe contar um segredo que me causou muita dor e muita humilhao no comeo. Fracassei no exame para a ordem dos
advogados, da primeira vez. Sempre me julguei invencvel e relaxei, no estudei. Ldia me avisou, mas no prestei a ateno devida. Foi um grande choque  ser reprovado.
         Charlotte pde ver no seu olhar sombrio que aquela experincia ainda lhe doa.
         - Antes de morrer, Ldia me disse que aquele fracasso fora bom para mim, porque me ensinara humildade. No repita outra vez que no sei o que  uma derrota.
         Charlotte sacudiu a cabea. J errara tanto, tirara tantas concluses apressadas e errneas.
         - Lembra a noite que estava aqui com voc? Quando Patrcia telefonou, acreditei que vocs fossem amantes. Como sofri, ento. Foi por isto que inventei aquela
histria sobre substituir Bevan.
         - Sinto muito, mas naquela ocasio no podia falar com ningum sobre o assunto, nem mesmo com voc. Caso Patrcia se voltasse contra mim, no queria que
ningum do escritrio fosse envolvido. Se alguma coisa sasse errada, eu seria o nico responsvel. Mas eu e voc temos coisas mais importantes para discutir do
que Patrcia.
         Ele a fitou amorosamente, acariciando-lhe o rosto.
         - Voc ainda no me disse que me ama, Charlotte.
         Ela apertou-se mais contra ele.
         - Amo, amo.
         - O suficiente para casar-se comigo?
         -  O suficiente para viver ao seu lado o resto da minha vida - ela balbuciou, trmula de felicidade.
         - Capaz tambm de ficar esta noite e fazer amor comigo? - Daniel perguntou, procurando-lhe a boca com ansiedade.
         Com uma risada feliz, Charlotte concordou:
         - Definitivamente, te amo o suficiente para ficar.




        * * *

         PENNY JORDAN sempre teve problemas na escola por causa de sua mania de "viver sonhando de olhos abertos". Vivia imaginando romances, heris e heronas.
Veio da ento a idia de escrever um livro - e a partir deste livro seguiram-se vrios, todos de muito sucesso. Hoje em dia dedica tempo integral para criar belissmas
histrias de amor.

??

??

??

??

